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quinta-feira, 6 de julho de 2017

A valsa dos adeuses (e um até logo)

Olá, DB
Hoje foi minha última atuação do ciclo. Oficialmente, minha última atuação como novinho. Passa um filmezinho na cabeça, não vou negar. Minha primeira atuação com Myn. Se jogar no vazio. Tudo tão diferente, mas tão igual. Um Aldo tão diferente, mas tão igual. Hoje, desafio que tanto encontrei nessas últimas atuações: MCM novo. Beatan, maravilhosa <3. Revisitar um setor que há tanto tempo foi um dos meus maiores desafios: o ambulatório da onco. É impressionante ver a diferença daquela atuação para a de hoje. Que diferença! Encontramos pessoas incríveis hoje. Dona Marina, com seu barco de papel. A senhora não tem barco? Por que se chama Marina? Só sei fazer barco se for de papel. Não seja por isso. Dona Marina voltou a ser criança fazendo seu barquinho de papel. Foi uma lindeza. Outro encontro inexplicável, com a senhora do desmantelo. Vocês são um desmantelo! Olha esse palhaço com uma meia de um tipo e outra do outro! Esse nariz é muito grande! Ah, mas os outros pacientes também são um desmantelo, não? Sim! Olha o desmantelo dela! Parece uma cantora de brega. E o casal do lado, que só fazia rir. Acho que me ocupo demais com as leituras e perco a coragem. Beatan, ao contrário, era pura coragem. Fizemos uma boa dupla, ainda que se desentendendo vez ou outra. Depois, entrar na sala de espera. Muita gente! Expande essa entrada, eu pensei. Expande, expande, aproveita o momento. Beatan vai com tudo. Eu ainda estava saboreando ali! Vou atrás dela. A criança rouba todo nosso foco. Palhaços de picadeiro? Mas não estamos sempre em picadeiros? No fim das contas, foram só delícias nessa última atuação. Os vários tropeços me fizeram lembrar que não é a última e, sobretudo, que palhaço pronto é palhaço morto!

Carnaclown, Bandeira e reflexões

Olá, DB!
Sobre o carnaclown, acho que a maior dificuldade foi atuar com tanta gente junta. Mais de mil palhaços no salão. Quaaase literalmente. Foi uma dificuldade cheia das suas delícias. Só a lembrança de Rai fazendo o rei leão já vale um carnaval. Ah, dançar as escadas cantando marchinhas é uma grande dificuldade. Enfim, esse DB vai ser meio diferente. Tem um poema de bandeira que acho que diz muito a respeito das maravilhas e dissabores de se descobrir palhaço, e que acho que cabe para o momento:

“Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça…
o seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa…
indiferente a tais ataques,
Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça…”

Eu_amo_atuações_poliglotas.jpg

Olá, DB!

Minha última atuação com as minhas MCMs foi, nada mais, nada menos, que na pediatria! Foi só saber que a atuação era lá que já me enchi de energia. Eu amo aquele lugar! Subimos a energia de um jeito tão gostoso, tão nosso. Sério, acho que foi a subida de energia mais maravilhosa que já tivemos. Vou sentir saudade de Pilé sarrando nas paredes, Cela se alongando, a gente se encarando. Terminamos o processo ao som de Shakira e saímos latiníssimos do quarto. Desenterrei meu espanhol e encontramos logo com um zelador que estava sem palavras. Foi muito engraçado! Hablas español? Yo vine de España! Tú, que hablas? E ele começou a falar uma língua esquisita de um português meio tronxo. Saímos e encontramos com uma criança que só falava a língua do hã. Falamos a língua do direito com ela. Direeeeito! Foi uma atuação bem poliglota, do jeito que eu amo. Depois encontramos com um bombeiro, que de bulldog e poodle, virou quase um desfile de “poxas” muito bem ditos. Seguimos com nossa amada sol (todas as zeladoras são Soll, não é verdade?), e tentamos juntar ela com um zelador. Eles super compraram o jogo e foi outra delícia. A atuação terminou com um olhar que resumiu tudo. Pense numa criança linda! Ele não conseguia sequer nos xingar. Xinga a gente! Tá! Vocês são muito engraçados!! E não tinha ninguém mais apropriado do que ele pra cumprir a missão de abrir a porta do quartinho. Pense numa missão secreta!

Enfermeiras da Nefro e onde habitam

Olá, DB!
Mequetrefe que sou, hoje vou forçar a memória pra lembrar um pouco da atuação da nefro. A impressão que me dá é que foi uma atuação difícil. E de fato, foi. Começou cheia de delícias, num dos quartos mais gostosos do ciclo. A gente entrou num pedido de foto, e Pilé, cheia de criatividade no pós-reciclagem, já ressignificou tudo! Não sei como, mas acabamos colocando os acompanhantes para chocarem ovos, serem gaviões e ciscarem que nem galinha. Coisas de atuação, né? Depois conhecemos uma história linda de um casal que se formou na hemodiálise. Eles se conheceram lá, po! Depois desse quarto, começamos a encontrar as dificuldades – mais especificamente Pilé, que viu tudo. Entramos na hemodiálise e, desde já, percebemos os pacientes fechados. Uma paciente ou outra interagia conosco, mas uma enfermeira chata ficava reclamando da “bagunça”. Uma paciente até comentou que ela era realmente muito chata. Foi bem incômodo. A energia de Pilé decaiu porque, segundo ela, essa enfermeira tinha se queixado da nossa presença para uma paciente, o que fez com a paciente se bloqueasse para o nosso trabalho. Foi bem triste. Na verdade, essa situação de pessoas fechadas voltou a se repetir em outro quarto, no qual Pilé já tinha tido um encontro não muito produtivo. No mais, tivemos muitos momentos UAU. Foi divertido brigar de estalar os dedos com um senhor no corredor (que, embora muito aberto para esse jogo, parecia aberto APENAS para esse jogo, sabe como é?). Viramos extraterrestres por um tempo. Ah, e não dá pra esquecer quando encontrei com uma colega de liga no corredor e – pasmem! – jogo me fez dar em cima dela! Hahaha quase morri de vergonha. Mas quem tá na chuva é pra se molhar, né?

Pediatria e duas lições

Então, DB, hoje vou me deter à análise de dois aspectos importantes da atuação. A atuação em questão foi só com Pilé, na pediatria.
Primeiro: como “se livrar” do paciente que exige demais? Uma criança em especial tornou essa atuação muito, muito, muito difícil. Foi logo um dos primeiros encontros. Ele estava aberto. Desenvolvemos um jogo legal com ele. Massa. Depois o menino começou a nos seguir no corredor, tirando fotos nossas o tempo todo. Fazíamos pose, tentávamos despistar. Era difícil saber se nos jogávamos totalmente no jogo com ele, se o ignorávamos e seguíamos nossa vida. Que difícil! Acho que soubemos conduzir bem, mas, em alguns momentos, parecia que não estávamos nem lá, nem cá, sabe? Não conseguíamos seguir sem ele, nem dar atenção a ele. Não sei bem se foi uma forma certa, se haveria uma maneira mais apropriada. Mas essa situação é sempre delicada. Acho que, no final, deu tudo certo (embora ele sempre voltasse).
Segundo: Cuida do MCM!!! Pilé, da metade pro final da atuação, ficou exausta! Ela estava realmente cansada e eu me culpo um pouco por ter demorado a perceber isso. Não sei ao certo o quanto demorei, mas quando a vi, ela estava com cara de ‘alerta vermelho’. Obrigado, Pilé, por ter segurado a energia tentando cuidar de mim! Eu sei que rolou e, assim que eu percebi teu cansaço, tentei dar um jeito de acabarmos logo. Ficar mais atento ao MCM: fica a recordação.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Mequetrefe em vários idiomas

Olá, DB!
Vou relembrar hoje o dia em que atuei com Rai e Myn, na pediatria. Foi uma atuação marcante, na qual aprendi um monte. Atuar na pediatria é sempre uma delícia, mas nesse dia em especial foi ainda mais incrível. Digo isso porque atuamos mais com os pais e acompanhantes do que com os pacientes. Foi um dia em que consolidei uma importante dinâmica da formação: ser feito de 'idiota'. Nem sempre você vai ser o esperto da situação. E esse foi dia de dar suporte ao jogo de Rai. Claro que também estive na situação de propôr. Vou explicar do começo: brincamos bastante com as crianças, foi uma delícia. Até que, em um momento, eu e Rai começamos a nos esconder delas. Estávamos com medo, assustados. Sempre que as crianças nos viam, nós paralisávamos. Nisso, começamos a nos disfarçar em objetos. Disfarça em móvel, disfarça em luminária, disfarça atrás da boina. O jogo já estava ficando repetitivo, quando Rai propõe algo novo. Com Arcanjo ainda estatuado, Luigi se liberta e vira escultor. Eu era sua estátua. Rai começa a brincar com meus braços e pernas, com minhas caretas. Até que Rai mostra a mágica: "ele sabe se apresentar se eu mandar". Agora se apresenta em inglês, em espanhol, em italiano. As crianças ficavam surpresas a cada nova língua. Acho que nunca fez tanto sentido falar outros idiomas - tudo o que aprendi valeu a pena ao ver as carinhas de espanto. Depois, fala em Francês. "Eita, não programei esse". Agora, imita uma gazela. Eu tentava expressar toda a reprovação com minhas caras e bocas, e as mães entendiam a dinâmica que estava surgindo entre nós. Depois, trocamos de lugar e foi minha vez de conduzir. Agora, tão acostumado com o papel de quem recebe ordens, ficava difícil mudar assim do nada. Ainda tinha (e tenho) muito o que aprender. Palhaço pronto é palhaço morto.

O roubo do carrinho

Olá DB!
Hoje vou relembrar o dia em que eu e Cela fomos pra enfermaria do 7º sul. Foi uma atuação cheia das maravilhas!! Dois momentos, em especial, marcaram o ciclo: o primeiro foi um jogo com um senhorzinho. Entramos no quarto eu e Cela e ele estava de pé, no meio do quarto. Não conseguimos ler se ele estava aberto ou não – ao menos eu tive muita dificuldade com isso. Ele observava, observava, observava. Parecia aberto, mas não tanto. Semi-aberto. Semi-fechado. Fui, então, testar o canal. Cumprimentei. Ele cumprimentou de volta. Cela cumprimentou. Eu cumprimentei mais forte. Cela, maravilhosa que é, já entendeu o recado. Estávamos, sim, numa competição de cumprimentar. Aí veio cumprimento com a mão, com o pé, com a barba, reverenciando, com a língua, e assim vai. O senhor comprava o jogo, mas sabe a sensação de que não cabe mais nada? Aquele era o jogo que cabia naquele momento e bastava. Foi maravilhoso! Gostei muito da nossa capacidade de leitura da situação, da conexão com minha MCM, de tudo.

 O outro momento marcante desse dia de atuação foi a proposta de Cela. Sabe quando você consegue ler e sacar toda a proposta do seu MCM com um olhar? Cela olha pra mim, olha para o carrinho de supermercado. Ela, a princípio, estava receosa, mas leu meu ‘sim’ com um olhar. E lá vai ela roubar o carrinho cheio de copos e esconder no meio do corredor! Foi muuuuito divertido e foi o ápice da atuação para nós dois. Distribuimos os copos de plástico, escondemos o carrinho – nos sentimos crianças. O melhor de tudo é que as pacientes do corredor super compraram o jogo. Foi realmente uma atuação maravilhosa que selou minhas conexões com Cela! 

Dr. Pinguinho, prazer

Olá, DB
Então, mequetrefe que sou, tô te colocando em dia com vários acontecimentos de uma vez só! Dessa vez vou te relembrar o dia em que atuamos com uma nova MCM: Ari!

Eu já estava louco pra atuar com ela há um tempo, né? Então, foi uma delícia ter ela comigo. Como sempre, quando tenho MCM novo, passo um tempo sentindo o terreno – já pensamos bastante sobre isso. A atuação em si foi complicada, havia poucos pacientes, como já é de se esperar na nefro. De início, a equipe de enfermagem já não nos quis dar bola. Os primeiros momentos de atuação foram cheios de PENs. Mas aí vieram as delícias. Acho que o encontro mais gostoso dessa atuação começou apenas com uma acompanhante. Ari puxou o jogo. Estávamos em um hotel? Havia muitas cama, tinha uma para nós? Ela responde que as camas são para pacientes. Dizemos que, sim, temos muita paciência. Daí o jogo fluiu. A senhora não entendia se éramos doentes, pacientes, acompanhantes, se tínhamos ou não paciência. Durou uns bons minutos nesse jogo – e a confusão dela estava uma delícia para todos. Nós começamos a ficar confusos. Era muita paciência e paciente e acompanhantes pacientes e acompanhantes sem paciência para doentes pacientes numa frase só. A paciente que ela estava acompanhando acordou e entrou no jogo! Pense numa delícia. A menina faltava um parafuso e sobrou para mim, médico vindo da França, resolver seu problema. Dr. Pinguinho virei, falando francês e tudo. Depois ela seguiu para seu encontro amoroso. Pense em momentos gostosos que surgiram ali! Depois fomos atrás da festa de Verinha, encontramos com uma senhora vinda de São Paulo – e meu sotaque francês voltou na mesma hora. A atuação que começou cheia de dificuldades, acabou cheia de maravilhas – mas que a maravilha maior foi atuar com Ari, com certeza foi.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Álbum de família

Meu amigo DB,


Primeira atuação do COB. Caramba! O lugar é um desafio. Inicialmente, éramos 4. Agora, só 2. Eu e Pilé pra dar conta daquele mundão de grávidas. Depois da atuação Pilé falou algo que me fez repensar bastante: a volta. Voltar pra alguém com quem você já atuou é tão bom, mas é tão fácil de se perder. Acho que a saída é sempre um momento especial pra mim, é hora de fechar a atuação e, nesse processo, tendo a reviver um pouco o que passou. É quase um rito de passagem. Mas a chance de se perder nisso é tão grande. Cada encontro é único e aquelas pessoas, por mais que no mesmo dia, já não estão no mesmo estado de espírito e disponibilidade. É. Ainda preciso aprender sobre isso em outras atuações. Pra mim, o ponto mais divertido foi abrir aquela porta mágica do COB. Ah, e o desafio de Camila: tirar uma foto boa. PAM. Parecia tão difícil. Mas o difícil é fazer o simples: olha uma paparazzi, bora fazer uma pose. Pronto.

O tempo é um rio que corre

Meu amigo DB,


A atuação dessa semana foi massa! Depois de um bom tempo volto a atuar com minhas MCMs oficiais <3. Eu, Pilé e Cela fomos ao AC. Meu receio por esse setor é bem real. Eu sempre me sinto em picadeiro lá, e dessa vez não foi diferente. Ou melhor, foi. Sinto que mantivemos a energia alta em quase todo o tempo – a diferir da nossa segunda atuação do semestre. Nossa evolução enquanto trio é evidente. Alguns jogos entraram, outros não, é claro. Acho incrível como me divirto atuando com as meninas. Vou sentir muita falta disso. Sentimos algumas dificuldades: uma acompanhante grupo na gente, como lidar? Ela nos seguiu por mais de um quarto, nos alugou no corredor. Eu já estava tenso, até que tive uma crise de risos e, nisso, conseguimos sair da situação. Tentávamos adivinhar o nome do filho dela que começava com A. É um nome muitxo lindjo. É Valter. Ah, Vaaaaaaaaaaaaaalter. Ela realmente achava que começava com A. Eu e Pilé não nos aguentamos, mas acho que não perdemos o respeito. Ela também estava se divertindo e, no final das contas, foi uma interação legal, principalmente ao perceber que, no início, ela sequer abria a boca. Outro encontro massa que eu preciso falar: dona Docinho. Que mulher maravilhosa! Virei seu chocolate branco e fomos pra Noronha. Acho que, de ponto alto, percebo que, de modo geral, soubemos encontrar o timing certo pra sair dos quartos. Além disso, sinto que estávamos mais disponíveis pro jogo do que lá naquela primeira atuação no AC. Evolução é o núcleo do dia.

Desenhos invisíveis

Meu amigo DB,


Atuar com um outro MCM dá sempre um frio na barriga. Ainda mais quando é um velhinho. Ainda mais quando é alguém que você tanto admira o trabalho. Muri é um daqueles clowns que você entra na onda da energia dele. Pense numa energia. Já no início subimos a energia no banheiro, derretendo, e já saímos jogando com a porta. Como funciona a trava? Abre, tranco ele do lado de fora. Volta assustado. Deixamos as bolsas na enfermaria. No início, estávamos sentindo o trabalho um do outro. Até onde podíamos ir. Quem está mais ativo. Quem vai dar a carta. Sinto que me arrisco pouco na tentativa de sentir o ritmo de Muri. Observo pouco o ambiente e me distraio com meu MCM. É uma desculpa digna? Com um tempo a dupla engrena e eu só tenho uma coisa a dizer: foi massa. Ressalto dois momentos incríveis: A sala das fofoqueiras. Entramos num quarto com 3 senhoras. Em certo momento, Muri se abaixa para fofocar com uma delas. Na mesma hora, eu me permito fazer de trouxa. A fofoca era sobre mim. Ele sai e eu ataco: o fofocado queria saber o que estava sendo dito. Em certo ponto, o jogo fluiu tão naturalmente que ambos eram fofoqueiros. De uma senhora para a outra. A primeira entrou tanto no jogo e cismava em não falar nada, porque os fofoqueiros éramos nós. O jogo funcionou incrivelmente bem, num ritmo que respeitou a participação das próprias pacientes. Valeu, Muri! O outro momento incrível que eu quero destacar foi a confecção do filme. Entramos no quarto e logo uma moça nos pede para filmar. Pronto. Começa nosso teste elenco. Eu me senti muito em jogo ao dizer à moça que filmava: “faz uma trilha sonora!”. Percebo que estou indo com medo mesmo e isso é um ganho imenso pra o menino dos receios. Ela compra o jogo e faz música de suspense, música de surpresa, etc. O jogo foi massa E ESTÁ FILMADO! HAHAHAH Ao final, sinto que respondo à minha pergunta lá no começo: não, não é uma desculpa digna. MCM é pra se sentir, não pra se observar.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Cacos para um vitral

DB,

Te peço desculpas, que dessa vez você será um DB bem mixuruca. Não há muita inspiração. Minha primeira atuação no Alojamento Conjunto me deixou com a impressão de que era um setor difícil. Não sabia o quanto seria essa última atuação. O AC é um eterno picadeiro. Dos piores. As pessoas não se mostravam abertas a interagir. Estavam esperando algo. Apenas esperando. Como expectadores, não como jogadores. Não comprariam cartas se estavam ali para assistir. Alguns pontos altos: o senhor vigiando o setor, o posto de enfermagem, o último quarto. Houve momentos em que a energia estava tão baixa, mas tão baixa, que não parecia haver de onde tirar energia. No último quarto, já cansados de nãos, um momento em que os papeis quase se inverteram. As pacientes tomaram o jogo. A gente só lançava uma carta e elas nos devolviam o baralho todo. E se divertiam, e nos divertíamos com elas. Foi um momento bonito e, de certa forma, revigorante. Ver todos rindo em um jogo tão fluido que palhaço virava paciente e paciente virava palhaço só me fazia ver que ainda é tempo de morangos.

sábado, 25 de março de 2017

Antes do baile verde

DB, 
A atuação na clinica foi mágica. Tudo começou já na salinha. Subimos a máscara e tínhamos que desligar a música. Comecei a brincar com a dança de Cela. Desliga, volta. Desliga, volta. Pilé aponta para desligar o ar-condicionado. Respondo com ruídos. As meninas continuam a comunicação com ruídos. Saímos cantarolando: ruídos. Era aquilo mesmo? atuaríamos sem falar? Parecia desafiador. No primeiro quarto, colocamos o rosto. Agora é na base do ruído, sem falar. Lascou. A acompanhante nos olha e diz: "ela está com sono". A paciente vira. Estava acordada! Entramos cantarolando nana neném. Começo a maestrar as meninas. Mais agudo. Mas grave. Cíclico. Baixo. Alto. Depois é a vez de maestrar a acompanhante. Ela, rindo, não entra no jogo - mas era visível sua vontade de entrar. Pilé joga uma carta: nana neném em jornalismo. Cela completa: em rock. Eu lanço outra: nana neném em carnaval. E nana neném ganhou vários tons, embalados pelo riso das duas. Uma pausa pra uma desvantagem de atuar sem falar: não trabalhamos com nomes. Uma vantagem de atuar sem falar: os nomes são do nosso imaginário. Saímos do quarto e encontramos uma senhora. Fazemos um quarteto e ela nos leva a seu quarto. Cantarolamos o tema dos sete anões. "Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou". É esse quarto? Ela, já falando em ruídos, aponta que não. Música cansada. Esse quarto? Ainda não. Música estressada. Esse quarto? Não! Música muito cansada. Esse quarto? Não!! Música em tom de socorro!! Depois entramos no quarto e estivemos em uma verdadeira selva, cheia de cobras que subiram ao toque da flauta (olhinhos do WhatsApp). Então veio um concurso de dança. Uma conversa no celular. Uma tentativa de sequestro. Uma pausa pra ouvir histórias. Um choro porque ia levar alta e deixar os amigos. Um divórcio com Cela, que me deu seu anel e o guardei no bolso. Até que no final: dona Francisca. Uma senhora que nunca tinha se casado. Prato cheio para o jogo. Pedi em casamento. Ela, muito seria, diz: "mas pra casar tem que ter aliança". Lembro do anel no meu bolso e olho pra Cela. Ela entende meu recado e diz que sim. Permite usar o seu anel. Que conexão linda! Que MCM maravilhosa! (E foi só nossa primeira atuação). Coloco em seu dedo a aliança e vamos para as fotos do casamento. Me agachei para falar com ela. Ela, me olhando cheia de amor, alisa meu cabelo e minha barba. Que olhar lindo. Que olhar feliz. Sinto uma troca de energias imensa e percebo o sonho que ela estava projetando em mim. Ela estava realizada. Não sei o tempo que passamos naquele encontro. Seus olhos estavam profundos e serenos, mas, apesar de carregar muita história, parecia só pensar naquele presente. Quem ganhou o presente fui eu.

sábado, 3 de dezembro de 2016

A hora da estrela

 Meu amigo DB,

Depois da primeira atuação com Pilé vem a primeira atuação com Rai. A diferença já estava no subir a energia. Rai tem uma energia muito grande e bonita. Amigo, se você for um bom lindovisor, você deve estar lendo isso, e só quero dizer que você é o irmão que não tenho e eu te amo pra caralho. Enfim, acho que isso ele percebeu enquanto subíamos a energia com o olhar. É engraçado que eu sempre tive dificuldade em subir a energia com o olhar em grupo. Mudar o foco e olhar para outro MCM sempre me pareceu uma quebra de vinculo. Mas dessa vez éramos, de fato, um quarteto. A atuação não foi fácil. Confesso que estive mais travado do que nas demais. Talvez pelo meu dia, pelos pacientes, pelo setor, não sei. Ponto alto: encontrar dona Vera Luce, a verdadeira luz. Me declarar em italiano pra ela. Ouvi-la cantando em italiano. Que ser iluminado. Que pessoa linda. Meus olhos enxiam de lágrima e eu nunca vou esquecer esse momento.

O tempo é um rio que corre

Meu amigo DB,

A primeira atuação com Sônia Sonolenta foi linda!! Rolou no alojamento conjunto e confesso que, antes da atuação, não saía da minha mente “cuida do seu MCM”. Eu e Myn já vinhamos em um ritmo e uma conexão muito boas, tinha medo de isso prejudicar, de alguma forma, Pilé. Mas ela simplesmente encaixou. Foi lindo! Ela compôs e nem parecia que, um dia, tinha existo só uma dupla. É como se ela estivesse estado lá o tempo todo. Que MCMs lindas eu tenho. No início, como sempre, eu estava travadinho. Myn e Pilé tomando atitude, e eu só entrando no jogo. Com um tempo eu fui tomando confiança e fui assumindo mais riscos. É algo que preciso ter em mente: preciso arriscar mais. É que às vezes dá vontade de só ficar olhando, olhando, olhando, olhando. Falar me parece tão desnecessário. Enfim, tivemos jogos e momentos incríveis. O momento do banco de leite, “como se senta nesse banco? Não molha a bunda não?”. Foi incrível quando joguei a carta do jogo dos siameses, depois que Myn me puxou e puxou Pilé pelo braço. Soltei uma palavra com muito medo de elas não sacarem. Mas minhas MCMs são as melhores companheiras do mundo e o jogo nasceu como se tudo tivesse sido premeditado, desde quando Myn deu o braço para nos juntarmos. Os risos dessas pessoas são lindos e verdadeiros e não saem da minha mente. Depois teve o jogo da dupla personalidade do bebê com nome composto. E eu não podia esquecer o momento de carregar os prontuários. A reciclagem nunca fez tanto sentido. Obrigado, gents, por me torturar me fazendo expandir aquela abertura de porta. Agora era expandir o carregar de prontuários. Expande, expande. Não tive muita oportunidade, no final das contas, mas já existia a pulga atrás da orelha que me impulsionava a melhorar a técnica, melhorar a atuação, elevar o nível do jogo, botar mais energia no gesto pequeno. Esse projeto é desafio atrás de desafio. Núcleo do dia: se desafie.

sábado, 5 de novembro de 2016

De cinzas

Perdão por minha mequetrefice por postar com uma semana de atraso. A atuação no ambulatório de onco foi, certamente, a mais difícil até agora. O fato de não podermos dar um chingling e mudar de quarto me deixava tenso, especialmente na mudança de jogo de um paciente pro outro. Desenvolver um único jogo sem tumultuar o setor era difícil. A energia do andar era pesada. A equipe não estava receptiva. Era como um picadeiro, onde todos lhe viam direcionado para um único paciente por vez. Primeiro, desenvolvemos um jogo já na entrada do banheiro e, de longe, já víamos Risolinda rindo em nossa direção. Ela foi, certamente, uma das mais abertas do dia todo. Myn baixou uma bela carta chamando-a de sacoleira. Lá vou eu chamá-la de Paraguaia. É assim nasceu Risolinda Paraguaia. Foi um jogo interessante. A dificuldade era envolver sua sogra, que estava aberta, porém visivelmente debilitada. O jogo com ela não fluía e tudo culminou em uma troca longa de olhares: senti a tristeza, somado ao desconforto e à gratidão de estar sendo vista. Seus olhos cheio de lágrimas. Lágrimas indecifráveis. Pra quebrar isso foi difícil. Quebrar esse olhar e emendar com uma atuação com a senhora que estava ali do lado - como fazer isso? Era como dizer "acabamos com a senhora e agora é a vez dela". Foi duro. Eu sinto que a gente falhou e que as transições foram bem mequetrefes. O ambiente exigia jogos calmos, e isso foi fazendo minha energia cair. Os pacientes cismavam em falar de suas vidas antes do câncer e isso me era um soco no estômago - mas estávamos ali para ouvir, também. O último jogo também foi especial. Era um menino jovem. Falamos de Tamandaré, nós convidamos para sua casa, dissemos que iríamos pro show com ele. Falamos de cuscuz com ketchup e outros gostos exóticos. Minha energia estava tão basal que era difícil dizer se era uma conversa sincera e nojenta ou se era, de fato, Arcanjo quem estava ali. Então foi descer a energia e dar um abraço na minha MCM. A sensação era de "foi bom, mas...."

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Do riso e do esquecimento

Meu DB, meu digno. Minha segunda atuação foi intensa. Começou já na hora do almoço. Te explico. Eu estava almoçando com Cami, Ari e Carol. Estávamos em uma energia imensa, cantando e dançando. Encontrei Myn com a energia lá em cima. Estava pronto pro setor. Chegamos na Onco e uma surpresa: um óbito não fazia 1 hora. A energia despenca. O corpo ainda estava no quarto. Ligamos pra Paulinha, nossa lindovisora provisória e mudamos de setor. Recupera a energia. Era impossível não se afetar. Aí chega uma mensagem de Paulinha: "Boa atuação hoje!". Cuida do seu MCM. Estou sendo cuidado. Vai dar tudo certo. Se joga no vazio.
Chegamos ao sétimo andar - nosso novo setor. Pedimos a chave, nos arrumamos. Subir a energia dessa vez foi mais especial. Estávamos só eu e Myn e a música ajudou. Performance a 100%, boca, olhos, braços acordados. Sobe o nariz e vamos. O medo da primeira atuação ainda estava lá, mas era mais leve dessa vez. Arcanjo me traz uma leveza que não sei explicar. A gente saiu. No primeiro quarto, um jogo inusitado. A senhora diz: "você sabe o que é o palhaço? O palhaço é quem rouba mulher". Não deu outra: minha função aqui é de ser ladrão. "Mas você quer roubar minha neta ou o ursinho dela?". O ursinho parecia mais aberto ao jogo. Vou atrás do urso. Mostra as mãos. Urso nas pernas. Mostra as pernas. Urso nas mãos. Abre as pernas e as mãos. Vem, Eulalia, me ajuda. Abram os dois, agora. Não tem mais o que fazer, o jogo vai se esgotando. Não posso deixar o urso e ir embora. Agora tem que ir até o fim. Dá um jeito dentro do jogo. Depois do erro não há nada. O que eu faço? O que eu faço? Pensa. Pensa. Pensa. Vou até a porta. Chamo uma menina passando. Entrego o urso. "Foi ela! Foi ela! Ladra! Ladra!" UFA! O jogo acabou. Fechou. Hora de fazer o chingling. A gente continua o jogo com a ladra. "Mas tu sempre rouba assim?" "Mas foi você quem roubou!" "Eu?  O urso tava na tua mão". Ela nos leva até sua mãe e, agora, um segundo ponto massa da atuação rolou. A dinâmica entre mim e Myn e algo tão natural, tão incrível. "Ela não lembra aquela atriz daquele filme?". Lancei o jogo, será que Myn sacou? "AH! Aquela? Daquele filme com aquele ator?" "ISSO! Com aquela cena daquele cachorro" UFA! Ela pegou! QUE MCM VIU? Por fim, o terceiro ponto alto: meu casamento. QUE casamento, viu? A gente começou olhando do lado de fora, só pra uma senhora de um quarto lotado. Só ela nos tinha notado. Ela olhava com um carinho, uma ternura. Depois de algum tempo, uma outra percebe: "Olha ele te paquerando, dona Severina". Entrei no jogo. Se é pra paquerar, vamos paquerar. O flerte com Severina não anda. Myn solta um: "Muda de foco, Arcanjo". OBRIGADO, MYN! CUIDA DE MYN! Aí rolou! Rolou muito! Com direito a daminha, a orquestra, a noiva e a aggiogiada. O quarto todo, que nem tinha nos reparado, estava mobilizado! Que lindeza! Que alegria! Que MCM! QUE atuação!

domingo, 16 de outubro de 2016

Sobre a primeira - Arcanjo

DB,
Sabe a sensação que me encheu de medo no jogo do se joga no vazio? Pois é. Eu a revisitei. Abrir a porta, depois de pronto, pra entrar definitivamente no setor parecia um tiro no escuro. Eu não tinha ideia do que ia acontecer. E que bom que não tinha. A atuação durou 2 horas que passaram voando. Não sentir o tempo passar é sinal de entrega ao presente? Talvez o seja. O primeiro quarto. O primeiro encontro. Eu estava tenso, nervoso. Estava tímido. Me faltavam as palavras. Mas o que importava estava ali, e eu sabia disso. O que importava era que eu estava cheio de energia, cheio de projeção. Meu corpo em trabalho, meu olhar redescoberto. Eu não sabia o que falar, mas sabia que não precisava falar. Eulalya falou! É hora de me lançar no jogo dela. Me lanço. A gente vai se casar? É. A gente vai se casar. Mas antes tem os filhos dela. Eita. Eulalya quer o filho dela. E por que eu não fico com a filha então? Não. Me sinto traído. Olha o corpo dizendo que se sentiu traído. Eita. Ela disse que é pra Eulalya se casar comigo. Corpo alegre. Transforma essa alegria de Arcanjo em energia. Isso. Vai tirar foto agora. Ajeita Eulalya pra ficar bonita na foto. "Vocês são lindos", numa voz tão doce, e talvez um pouco debilitada. Saímos do primeiro quarto com casamento marcado. Encontramos Marininha e Paulinha. Eita. Eulalya com vergonha. Dessa vez, vou eu. Oi, você faz convites pra casamento? Quantos? 5 mil, claro. E Eulalya entra. Já temos vestido, é rosa. O convite tem que ser rosa também. Bota Paulinha no jogo agora: E você me faria um terno? (Que doideira, há 5 minutos Dinho tava subindo a energia com Paulinha, agora Arcanjo pede um terno a uma desconhecida). Segundo quarto. Terceiro quarto. Todos tão receptivos. Dona Dedé tinha um jeito doce e, não fosse por isso, ainda se ofereceu pra fazer docinhos pro casamento. Me defende, Dona Dedé. Isso, Dona Dedé vale por 5. A senhora faz nêgo bom? Mas Eulalya prefere o branco bom!! De onde isso surgiu? Aí vem a gaitada de Luciana - que coisa gostosa de ouvir - a energia vai lá pra cima. Então vem o amigo do pagode, a rosa de Rosa e o amor não correspondido de Inácia, a camisa rosa que era do irmão. Que tarde linda. Que sensação incrível. Eu e Myn ainda temos muito a crescer, mas a certeza de que ela é minha MCM me preenche, com uma alegria imensa de ter, toda semana, esse encontro com ela. Que Pilé chegue logo, pra Sonia Sonolenta completar nosso trio!

14/10/16
Dinho