Última atuação do ciclo. Ia ser com Carlinha, depois com carlinha e Safifi, e acabou sendo eu e Safifi mesmo. Gostei que tivesse sido assim. Acho que a gente precisava, devia um pro outro ter um momento juntos mais. Sinto-me presenteado com essa oportunidade que tive de estar mais perto dela esse semestre. Voltamos neste dia para a nefro, espaço que já tinhamos visitado neste ciclo. Agora acho que me agrado mais com esses retornos. Parece mesmo ser uma questão de amadurecimento com o projeto, com o meu ser palhaço, que a volta começa a ter um gosto todo especial também. Começamos hoje com uma questão sobre as fotos. Safifi queria ter, tirar foto da gente atuando, e acabamos juntos passando um tempo bom para realizar uma forma de ter isso dentro de nossa atuação naquele dia. Espero de verdade que ela não sinta que perdeu a chance ou a oportunidade de marcar mais, de guardar mais, de ter mais coisa para ver e mostrar depois.
Acaba que a atuação fica marcada pelo sétimo, pela psiquiatria, primeiro por um jogo com um dos cuidadores do setor, que estava extremamente mobilizado. Depois por conta de uma paciente e seu acompanhante, os últimos com quem atuamos neste ciclo. Ela vinha de um tempo de internação no sétimo andar, e ele, seu filho, tinha passado quase um mês junto dela ali, convivendo naquele espaço. Estuda em cursinho para tentar medicina, conversa com a gente sobre como sentiu toda aquela experiência e sinto uma riqueza nesse encontro indescritível. Ela, por outro lado, fala que não quer conversar. Safifi se sente mal com isso, quer tentar, quer ver se consegue abrir. Eu procuro confortar ambas de jeito que podia. Continuamos com o filho e de forma espontânea a mãe começa a falar. Não olha a gente no olho, mas fala com a gente, fala com um riso meio acobertado, escondido. Ensaia alguns olhares. Eu fico com medo de carregarmos muito e aproveito as chances que aparecem para dar mais sinal para sairmos do setor. Acho que é assim, que se for pra ser, tem que rolar a atuação em ala psiquiátrica. Acho muito que pode acontecer, mas que precisamos de fato de um pouco mais de atenção para saber onde não ir, coisa que tenho ainda um tanto de dificuldade com, que sinto de minhas duplas também e que acho que de certa forma como projeto ainda temos muito a trabalhar neste sentido.
Enfim. Foi. Aconteceu. Terminou este ciclo, esta história em doze capítulos que pra mim foi em treze. Que outras venham, mas que as histórias deste ciclo sejam para sempre vivas em mim. Que eu não às perca de vista. Que meu olhar, que nossos abraços e sorrisos possam transparecer nos reencontros as maravilhas que rechearam essa jornada de tanto sentido e valor e sentimento e verdade. Que eu seja pra sempre mais, e que eu veja sempre mais lá fora. Obrigado a todas e todos que compartilharam deste semestre. Mando-lhes mentalmente as melhores energias que tenho. Continuem bem, continuem gigantes, continuem abertos ao novo. Eu, cá comigo, estarei sempre às ordens.
Abreijos e queijos,
Antenório
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sábado, 1 de julho de 2017
O Caminho?
Não sei direito por onde começar este relato. Começo pelo bingo do ano passado? Falo de como estava sendo antes da chegada da quadrilha a nossa atuação? Melhor.
Tinhamos acabado de andar até o final do corredor, por conta de uma senhora que lá estava sentada, aparentemente muito isolada. Ela fala do trânsito no corredor, e brincamos durante um tempo com o ir e vir das pessoas por ali. Desviamos nosso olhar para dentro do quarto, e quando nos voltamos outra vez para o corredor vemos um mar de gente vestida de quadrilha, com a cara pintada, animadamente caminhando em nossa direção. Gelei. Bateu um medo que eu acho que igual até agora não senti dentro de alguma atuação. Tudo de repente voltou pra mim daquela atuação com o bingo, e eu queria fugir, mas Safifi tinha se animado. Não queria cortar a onda dela, mas não achava que a gente podia se misturar muito com essa galera toda, se perder e se confundir nisso. Ficamos meio que jogando com uma ansiosidade em cima dessa chegada deles até a gente, eles chegam mais próximos e o volume da voz vai aumentando, safifi começa a se mexer e eu engato com ela, começamos a girar em par dançando uma quadrilhazinha. Eles nos alcançam, paramos a dança e eles contam o que vieram realizar pra gente. Tento dar apoio, mas não consigo deixar de sentir em parte medo de como essa relação iria se desenvolver. Consigo puxar Safifi pra fora daquele quarto, e vamos atrás de algum outro para atuar do nosso jeito. O barulho que chega deles é o estímulo soberano, nada alcança apagá-lo ou distanciá-lo, Safifi sente isso também, e acabamos falando deles e da quadrilha, mas do nosso jeito. Estou começando a ficar desconfortável, a gente começa a jogar que vai se esconder no quarto deles, fingir que é acompanhante. Ficamos sentados em duas poltronas vazias de lá e a quadrilha entra. Estava eu de um lado com uma paciente e uma acompanhante e Safifi do outro, com duas pacientes e duas acompanhantes... e eles todos entram virados para o meu lado. Fico puto, extravazo tirando onda deles, da barba feita a canetinha, de coisas assim. Tento alcançar em conversa as pacientes que estão para lá deles mas não consigo de verdade. Devia ter tentado fazer isso fisicamente, mostrado pra eles a barreira que tinham criado entre a gente e o descaso que estavam apresentando frente as pacientes. Desta vez eles saem um pouco depois, e nós continuamos naquele quarto, dando alguma distância entre a gente e eles. Entramos em mais um dos quartos, e eles estão agora já desenvolvendo a culminância deles no corredor, um casamento com noivo, noiva, padre e amante. Quando saimos eles não estão mais no setor. E eu fico me sentindo mal de não ter podido falar mais com eles, pedir que fizessem mais silêncio, que estivessem mais atentos quanto a como se portavam naquele ambiente... um monte de coisas. Ficamos achando que eram parte do Caminho, e eu estou com muita vontade de conversar com a organização do caminho para que se dê um pouquinho que seja de orientação para essa galera não estar fazendo esse tipo de coisa durante a atuação, sabe? Não acho que seja por mal, acho que é descuido.
De qualquer forma, sinto que conseguimos desenvolver essa dança de estar junto mas ser uma coisa separada deles de forma razoável. Acho que talvez eles tenham saído um pouco sentidos com a distância que a gente promovia em certos momentos do que eles propunham ou coisa parecida. Queria poder ter falado com eles depois, sem a máscara de palhaço, de participante de projeto de extensão para participante de projeto de extensão, mas isso aparentemente não tem muito como ser feito. Espero que se houver uma próxima vez eu esteja mais seguro para dar mais a entender que não acho ruim o que eles querem fazer, mas que se é esse o caminho que escolheram para promover o que pretendem, há bastante coisa, me parece, que precisa ser revista.
Alterando por Artifício
Lembro do frio. Mais do que tudo, me lembro de ter sentido frio. Acho que ando com medo de sentir que me repito no setor, então sempre tento focar em outra coisa. Dessa vez fui nisso, sentindo o clima mais frio, o ar condicionado, o espaço que diferia tanto dos outros fisicamente, que era quase alienígena para mim. Falta acreditar mais, acho, que vai ser mesmo diferente e que isso vai depender muito mais de que estejamos disponíveis do que que estejamos desviando sempre no sentido de alcançar o novo como se esse fosse o objetivo, até porque o novo pra gente pode ser o normal pra eles. Penso agora de quantos palhaços que não vieram e fizeram a mesma coisa que eu, de focar tanto e sentir tanto esse frio, que não acontecia porque o dia estava especial, mas porque o lugar é assim e pronto... Que me restringindo a uma diferenciação tão superficial assim eu facilito para mim as referências mentais que posso construir a respeito da experiência, mas efetivamente não permito que o dia aflore pelos caminhos que trouxer, acabo terminando em uma nota muito próxima daquele que comecei, fechando muito ou fechando quase sempre no frio a chegada e a saida... Como se acreditasse que partindo de um novo pressuposto estabelecido o caminho será especial. Não sei na verdade em que sentido que anda essa problematização, mas não posso deixar de perceber que esse processo soa de certa forma meio como um estado de alteração artificial, distanciador entre mim e a experiência de fato.
No mais, dezembro vai entrando e eu não consigo deixar de sentir que chegamos muito tarde para começar esse processo. Sinto-me muito mal pelo tempo que tivemos que tomar entre oficina e chegada no setor, mas espero que este hiato não promova maiores problemáticas quanto a este semestre de atuações e a minha continuidade do projeto.
No mais, dezembro vai entrando e eu não consigo deixar de sentir que chegamos muito tarde para começar esse processo. Sinto-me muito mal pelo tempo que tivemos que tomar entre oficina e chegada no setor, mas espero que este hiato não promova maiores problemáticas quanto a este semestre de atuações e a minha continuidade do projeto.
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Expectativas
Segunda atuação da terça, agora com Biazinha, mais um momento singular nessa minha jornada de ciclo, que tinha sido ensaido faz já algum tempo. Nos encontramos literalmente no caminho, subimos o elevador, ela bastante receosa de estarmos indo pra pediatria e eu super animado pra ajudar a descontruir isso, ou para pelo menos acompanhar isso sendo descontruído. Sou apaixonado pela desconstrução, acho que é a coisa mais doida e mágica que existe dentro da experiência de ser gente. Pensa na primeira vez que você jogou mário, os em 2D mesmo, e que você tá lá correndo e pulando nas plataformas e pulando na cabeça dos inimigos e pulando no ar livre... e de repente um bloco que estava invisível aparece naquele lugar que parecia não ter nada antes e você pega uma vida extra. Só tem como ser mágico, fascinante, surpreendente porque até aquele momento o jogo vinha construíndo de forma bastante ordenada as limitações que ele impunha na sua forma de se relacionar e interagir com aquela experiência de ser mário por aquele tempo. E quanto mais bem estabelecido for o padrão, quanto mais organizadas e direcionadas as expectativas, mais forte vai ser o momento da quebra. Quanto mais certeza temos que nunca vai ter nada onde está vazio. mais impactante vai ser encontrar de repente uma vida nova escondida alí. E isso é fundamental para a experiência de ser humano, pros nossos processos de significação e de construção de self, e pro nosso trabalho como palhaços. Somos privilegiados neste sentido porque atuamos com um tipo de linguagem que dá muito espaço para a gente perceber o quão limitador é termos pressupostos como esses pro nosso dia a dia, de que tem lugar que é bom e lugar que não é bom, coisa que a gente consegue e coisa que a gente não consegue, coisa que é fácil e coisa que é difícil, coisa que a gente já aprendeu e coisa que a gente não sabe. Da mesma forma que não vale à pena nos resolvermos com padrões previamente estabelecidos, tampouco vale à pena estar sempre passando pente fino em todos os instantes da vida para encontrar a coisa que é diferente e mágica lá. Na hora que descobrimos que existe um bloco invisível imediatamente nos perguntamos sobre todos os blocos invisíveis que perdemos ou deixamos de perceber que estavam lá até então e voltamos, pulando freneticamente pela tela, atrás de encontrar estes segredos, sem saber se aquilo foi uma vez em mil ou se o tempo todo vai ter um bloco onde não esperávamos que tivesse, e essa ação nossa vai ser moderada por quem desenvolveu o jogo com a escassez de blocos invisíveis, para que a gente entenda que é uma coisa que tem, mas que só tem às vezes e que a gente pare de correr atrás disso só e simplesmente jogue o jogo. Nenhuma das duas intenções naturais é suficiente pra gente viver. Nem trabalhar apenas com padrões nem estar sempre correndo atrás de identificar o que é novo e onde esse novo afeta nossa vida numa perspectiva pra frente e pra trás. A síntese entre uma e outra é mais interessante. É voltar depois da sessão de pulular frenético atrás de novos blocos a simplesmente jogar o jogo como estavamos antes, mas agora sabendo que os blocos podem aparecer, crescendo assim a forma como interagimos com os níveis porque estamos agora mais experientes, mais cheios de experiência, carregados no sentido de atentos a esse novo tipo de estímulo. Estamos mudados, ainda que pouco, e vai ser dessa mudança que novas poderão surgir, e cresceremos sempre, porque sabemos valorizar aquele momento do bloco invisível, mas sabemos também que se o tempo todo estivermos esperando encontrar um bloco invisível a descoberta perderá sentido, graça, beleza, impacto.
Adorei ter estado com Biazinha naquele momento, pra mim foi muito bom, e espero que para ela também tenha sido. Pude ser algumas coisas do meu palhaço com mais clareza dessa vez, alguns jeitos de ser palhaço que por vezes não encontro nas minhas atuações semanais:
- estar no suporte aos demais quando Biazinha entrava em um momento mais profundo e sentido com alguém que estava mais cabisbaixo, precisando de um outro tipo de atenção,
- estar preocupado com que as pessoas não se machuquem ou façam besteira, cuidar quase que de modo maternal.
- ser malcriado um pouco também, mas sempre ligado em fazer isso sem atropelar as defesas das pessoas.
No mais, não posso conter a minha vontade de ler o que ela escreveu. Não sei tampouco se ela já postou, mas quero muito. Tô querendo muito ler os DBs de quem atuou comigo, acho que só li uns de Aaaaah no semestre passado. Vou cobrar isso das minhas duplas. Tá faltando na minha vida esse lado das coisas. Enfim, sempre tem um universo inacabável de questões e de vivências que não entram nesses textos, você sabe como é Yo. Essa é uma perspectiva, uma forma de ver sentido no que rolou, aquilo que me salta. Quero ler de Biazinha para ouvir outra, reconhecer o valor dessa outra forma de pensar e ver e dar sentido ao que aconteceu, para que eu também possa crescer, encontrar novos blocos invisíveis no meu caminho dentro desse trabalho de ser palhaço.
Adorei ter estado com Biazinha naquele momento, pra mim foi muito bom, e espero que para ela também tenha sido. Pude ser algumas coisas do meu palhaço com mais clareza dessa vez, alguns jeitos de ser palhaço que por vezes não encontro nas minhas atuações semanais:
- estar no suporte aos demais quando Biazinha entrava em um momento mais profundo e sentido com alguém que estava mais cabisbaixo, precisando de um outro tipo de atenção,
- estar preocupado com que as pessoas não se machuquem ou façam besteira, cuidar quase que de modo maternal.
- ser malcriado um pouco também, mas sempre ligado em fazer isso sem atropelar as defesas das pessoas.
No mais, não posso conter a minha vontade de ler o que ela escreveu. Não sei tampouco se ela já postou, mas quero muito. Tô querendo muito ler os DBs de quem atuou comigo, acho que só li uns de Aaaaah no semestre passado. Vou cobrar isso das minhas duplas. Tá faltando na minha vida esse lado das coisas. Enfim, sempre tem um universo inacabável de questões e de vivências que não entram nesses textos, você sabe como é Yo. Essa é uma perspectiva, uma forma de ver sentido no que rolou, aquilo que me salta. Quero ler de Biazinha para ouvir outra, reconhecer o valor dessa outra forma de pensar e ver e dar sentido ao que aconteceu, para que eu também possa crescer, encontrar novos blocos invisíveis no meu caminho dentro desse trabalho de ser palhaço.
Palhaço em Construção
Quem vai uma vez vai outra. Era essa a filosofia que tinha assumido pra mim nesta terça. Tô achando interessante que nesse semestre eu venho sentindo simultaneamente que não paro de atuar nos mesmos lugares e que sempre é diferente a atuação. Tive agora a oportunidade de descontruir de certa forma o primeiro argumento, indo semana passada no COB e agora nesta primeira manhã minha de atuação na enfermaria de Onco.
A maior marca que carrego desta, acho, é o receio de termos sido num primeiro momento apresentados à equipe, levados pela psicóloga a ver com isso também os pacientes e a ser vistos pelos pacientes como os palhaços antes de subir nariz e fazer maquiagem e qualquer coisa. Safifi ficou mal com isso, eu fiquei querendo esconder a cara, fugir pro vestiário, ao mesmo tempo que parte de mim ficou se perguntando por que não já palhaço, por que ali já não ser notadamente palhaço? Por que ter medo de dar referência de antes e de depois às pessoas na atuação? Por que tem que ser isso do existir apenas no momento? Estive conversando com Safifi que temos uns problemas com identidade nesse nosso ser palhaço, que para a gente acaba parecendo que faz falta muito ter isso de identidade resolvido ou melhor construído, sabe? Acho que isso é uma coisa que caberia ser mais conversada dentro do projeto. Que até certo ponto eu acho muito importante da gente ter um pouco estável certos elementos no nosso atuar palhaço pra fortalecer isso e poder crescer o palhaço e não acabar sendo muito outra coisa durante a atuação, deixar trasnpassar muito de outras coisas durante a atuação, de outra forma de olhar, outra postura de encarar e enfrentar as coisas. Mas ao mesmo tempo estamos nesse trabalho de construção de um self clown tendo que viver o momento em sua singularidade absoluta. Não tem o jeito de responder a uma pergunta, mas tem o jeito que você responde naquele dia a uma pergunta. Não precisa ser médico, psicólogo, artista, recifense, apaixonado, gente, magro, alto, baixo, gordo, cabeludo, criança, adulto, estudante, morador de rua, novo, velho do mesmo jeito todo dia, tem o que se assume naquele momento dentro do estabelecido pro jogo, do que importa pra relação que se estabelece. Ao mesmo tempo que eu critíco na minha cabecinha essa necessidade que se apresenta com uma costumeira frequência de termos elementos mágicos, que guardam uma certa propriedade mágica em nossa produção deste outro jeito de ser que seria o palhaço - a roupa é pele, o nariz não pode ser tocado, o nome é Kinhos ou Antenório Barba Rala, a buzina não se aperta - eu acho que tem que ter mesmo algumas coisas que a gente guarda nesse nível, nesse lugar de força por que se não é difícil mesmo sair de si, sair do cotidiano, sair do normal, sair do resolvido. E aí tem uma dicotomia que se estabelece entre o ser sempre disponível e para o momento e o jogo que se desenvolve, saber encontrar no jogo o que é que precisa ser exposto, expresso, apresentado versus a construção ao longo do tempo, a formação mesmo do nosso self como palhaço, de ser esse jeito de existir, de ter coisas que nos facilitam ser esse jeito de existir, e de conseguir chegar nele sempre que for essa nossa intenção. Lacan fala que o consciente é o mundo do significado, do sentido, das coisas como entendemos e fechamos elas, e o inconsciente é do significante, do que está por detrás destes sentidos que no inconsciente deslizam, mudam, se agregam, viram tudo e nada. Não é o que somos que vai ser fechadinho em todas as atuações, mas o jeito que escolhemos ser, a forma de buscar quais significados serão dados e compartilhados daquela vez e quais não serão, em conflito à natureza da razão consciente da gente que quer sempre ser resolvida e clara e concreta. Acho que essa construção conflituosa é base no nosso processo dentro do projeto, e que a gente podia falar mais disso, também no sentido de ajudar as pessoas que passam por isso a reconhecerem o que é que tá acontecendo, como que isso tá acontecendo, e se ligarem mais em cuidar dos dois lados desse trabalho, sendo sempre mais agora exatamente como forma de poder ser ainda mais no futuro.
A maior marca que carrego desta, acho, é o receio de termos sido num primeiro momento apresentados à equipe, levados pela psicóloga a ver com isso também os pacientes e a ser vistos pelos pacientes como os palhaços antes de subir nariz e fazer maquiagem e qualquer coisa. Safifi ficou mal com isso, eu fiquei querendo esconder a cara, fugir pro vestiário, ao mesmo tempo que parte de mim ficou se perguntando por que não já palhaço, por que ali já não ser notadamente palhaço? Por que ter medo de dar referência de antes e de depois às pessoas na atuação? Por que tem que ser isso do existir apenas no momento? Estive conversando com Safifi que temos uns problemas com identidade nesse nosso ser palhaço, que para a gente acaba parecendo que faz falta muito ter isso de identidade resolvido ou melhor construído, sabe? Acho que isso é uma coisa que caberia ser mais conversada dentro do projeto. Que até certo ponto eu acho muito importante da gente ter um pouco estável certos elementos no nosso atuar palhaço pra fortalecer isso e poder crescer o palhaço e não acabar sendo muito outra coisa durante a atuação, deixar trasnpassar muito de outras coisas durante a atuação, de outra forma de olhar, outra postura de encarar e enfrentar as coisas. Mas ao mesmo tempo estamos nesse trabalho de construção de um self clown tendo que viver o momento em sua singularidade absoluta. Não tem o jeito de responder a uma pergunta, mas tem o jeito que você responde naquele dia a uma pergunta. Não precisa ser médico, psicólogo, artista, recifense, apaixonado, gente, magro, alto, baixo, gordo, cabeludo, criança, adulto, estudante, morador de rua, novo, velho do mesmo jeito todo dia, tem o que se assume naquele momento dentro do estabelecido pro jogo, do que importa pra relação que se estabelece. Ao mesmo tempo que eu critíco na minha cabecinha essa necessidade que se apresenta com uma costumeira frequência de termos elementos mágicos, que guardam uma certa propriedade mágica em nossa produção deste outro jeito de ser que seria o palhaço - a roupa é pele, o nariz não pode ser tocado, o nome é Kinhos ou Antenório Barba Rala, a buzina não se aperta - eu acho que tem que ter mesmo algumas coisas que a gente guarda nesse nível, nesse lugar de força por que se não é difícil mesmo sair de si, sair do cotidiano, sair do normal, sair do resolvido. E aí tem uma dicotomia que se estabelece entre o ser sempre disponível e para o momento e o jogo que se desenvolve, saber encontrar no jogo o que é que precisa ser exposto, expresso, apresentado versus a construção ao longo do tempo, a formação mesmo do nosso self como palhaço, de ser esse jeito de existir, de ter coisas que nos facilitam ser esse jeito de existir, e de conseguir chegar nele sempre que for essa nossa intenção. Lacan fala que o consciente é o mundo do significado, do sentido, das coisas como entendemos e fechamos elas, e o inconsciente é do significante, do que está por detrás destes sentidos que no inconsciente deslizam, mudam, se agregam, viram tudo e nada. Não é o que somos que vai ser fechadinho em todas as atuações, mas o jeito que escolhemos ser, a forma de buscar quais significados serão dados e compartilhados daquela vez e quais não serão, em conflito à natureza da razão consciente da gente que quer sempre ser resolvida e clara e concreta. Acho que essa construção conflituosa é base no nosso processo dentro do projeto, e que a gente podia falar mais disso, também no sentido de ajudar as pessoas que passam por isso a reconhecerem o que é que tá acontecendo, como que isso tá acontecendo, e se ligarem mais em cuidar dos dois lados desse trabalho, sendo sempre mais agora exatamente como forma de poder ser ainda mais no futuro.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
O Suficiente
Eu não sabia exatamente o quão diferente seria a experiência de ir ao COB. Sabia que era um espaço com algumas particularidades, mas nunca imaginaria que tudo fosse parecer tão especial. Safifi já tinha ido antes uma vez, e ela meio que me conduziu até os banheiros/vestuários. Não sei se deixei transparecer, e não sei direito como representar a sensação que tive nesse processo, parecia aquelas sequências em filmes de ficção científica em que o leigo que serve de POV pros espectadores é apresentado à história ou aos fundamentos da tecnologia que viabilizaram a construção da máquina do tempo/portal interdimensaional/bomba de antimatéria que se encontra por detrás daquela imensa e proeminente porta no fim do corredor. Não consigo pensar em nenhuma forma mais adequada de aludir ao que senti durante aquele caminho. Enquanto estou me maquiando um funcionário vem falar comigo, dizendo que é palhaço, que trabalha com casa de festas e que tinha atuado com palhaços de algum dos projetos aqui de Recife, mas que não tinha sido deixado, ou preferiram que ele não continuasse... Não entendi direito, mas fiquei pensando se a gente não podia ver de tentar alguma vez um trabalho com esses outros palhaços que não são de projeto, ver se tem coisa que dá pra tirar disso boa pros dois lados, sei lá.
A atuação em si foi complicada. Tinha muita gente no COB, e a gente perdeu absolutamente a noção do tempo, acabamos super cansados, atuando tempo demais pro corpinho mau preparado da gente. Das histórias, acho que esse foi um dia que condensou muita coisa complicada. O que eu senti mais forte nesse dia e que eu carrego em questionamento que seja mais específico do que rolou lá foi o caso de uma paciente, que contou pra gente que na madrugada daquele dia tinha nascido seu filho no corredor, e que ela tinha feito o parto sozinha, sem acompanhamento de ninguém da equipe médica. O bebê ia rolando da cama para o chão, mas ela conseguiu segurá-lo com a perna e evitar a queda. Contou isso pra gente claramente consternada, irritada com o descaso e o descuido do serviço, sofrida pela ideia de que podia ter perdido seu filho ou tido outros problemas durante o parto por conta da falta de atenção dos trabalhadores de lá, da enfermeira que estava por perto mas que não levou em consideração os seus chamados e pedidos de ajuda. Estávamos com ela, tentando fortalecê-la de alguma forma nesse processo, valorizar o que tinha conseguido fazer, admirados que estavamos com sua resiliência, força de vontade, capacidade de lidar com aquela situação de tanta adversidade, e do lado passara alguém da equipe que fizera uma piada com a história, e eu não consegui não sentir descaso naquela fala. Outra passara e não dera atenção ao relato, e olhara pra mim, como se esperando que eu me colocasse em seu favor, como parte da equipe de saúde do hospital, que sei das dificuldades gerais do serviço e que esse tipo de coisa acontece mesmo e é normal que isso aconteça e faz parte e se a gente ficar se aperreando com toda vez que alguma coisa assim acontecer a gente não dorme de noite em casa... E eu fiquei sem saber como me colocar dentro dessa situação. Sou parte dos profissionais de saúde, mas como palhaço tenho um papel bastante particular de estar junto do sujeito, independente se este é ou não paciente, de identificar suas demandas e construir com ele, e assim sendo tem horas que vai ser de um jeito e horas que vai ser de outro.
Acho que a brincadeira acaba por vezes ofuscando muita coisa, como a moça que ao chegarmos desata de rir, que nos conta que perdeu o filho no dia anterior, e que era seu aniversário, que tinha passado o tempo todo antes chorosa e agora pendia pro outro extremo como ocorre por vezes. Rir é uma coisa fundamental pra saúde, conseguir fazer piada, tirar de letra, mas se a gente cair muito nisso acaba se perdendo e não se ganhando vida e saúde. Acho que em primeira instância há de vir o reconhecimento do sofrimento, de alguma forma, sempre. Não dá pra desconsiderar ele no nosso trabalho, deixar ele de lado, em suspenso. Pelo menos eu não consigo. Me parece que temos um papel muito importante de promotores de saúde e educadores de saúde exatamente porque temos condição de entrando ali nos colocar com relação ao doído e sofrido, e tentar puxar o que o sujeito tem de recursos para lidar com isso, que estão adormecidos ou anestesiados ou esquecidos. Se existe algo que poderia ser entendido como uma atuação melhor, seria uma que permite isso com mais intensidade, essa mudança, uma que puxa consigo uma resposta mobilizada de um sujeito agora mais disposto e motivado a lutar por sua saúde e pela daqueles que estão próximos. Não é só 'vai-ficar-bom', é o que tem agora que a gente pode fazer que é bom, que não vai curar a doença, ou trazer de volta o filho, ou ainda sanar as deficiências estruturais do hospital, mas que vai dentro de uma perspectiva de cuidado dar suporte ao humano que tem ali e que está por vezes tão sufocado por todos os lados por máquinas e protocolos e medicamentos e rotina e olhares neutros. E quem sabe nesses poucos e fugídios momentos de encontro que podem parecer tão passageiros dentro do contínuo infinito que é o viver de cada um, a gente não consiga fazer algo que por vezes o SUS não é capaz com suas equipes multiprofissionais, que os hospitais particulares não alcançam com seus quartos particulares impecáveis e suas máquinas de alta tecnologia: o suficiente.
A atuação em si foi complicada. Tinha muita gente no COB, e a gente perdeu absolutamente a noção do tempo, acabamos super cansados, atuando tempo demais pro corpinho mau preparado da gente. Das histórias, acho que esse foi um dia que condensou muita coisa complicada. O que eu senti mais forte nesse dia e que eu carrego em questionamento que seja mais específico do que rolou lá foi o caso de uma paciente, que contou pra gente que na madrugada daquele dia tinha nascido seu filho no corredor, e que ela tinha feito o parto sozinha, sem acompanhamento de ninguém da equipe médica. O bebê ia rolando da cama para o chão, mas ela conseguiu segurá-lo com a perna e evitar a queda. Contou isso pra gente claramente consternada, irritada com o descaso e o descuido do serviço, sofrida pela ideia de que podia ter perdido seu filho ou tido outros problemas durante o parto por conta da falta de atenção dos trabalhadores de lá, da enfermeira que estava por perto mas que não levou em consideração os seus chamados e pedidos de ajuda. Estávamos com ela, tentando fortalecê-la de alguma forma nesse processo, valorizar o que tinha conseguido fazer, admirados que estavamos com sua resiliência, força de vontade, capacidade de lidar com aquela situação de tanta adversidade, e do lado passara alguém da equipe que fizera uma piada com a história, e eu não consegui não sentir descaso naquela fala. Outra passara e não dera atenção ao relato, e olhara pra mim, como se esperando que eu me colocasse em seu favor, como parte da equipe de saúde do hospital, que sei das dificuldades gerais do serviço e que esse tipo de coisa acontece mesmo e é normal que isso aconteça e faz parte e se a gente ficar se aperreando com toda vez que alguma coisa assim acontecer a gente não dorme de noite em casa... E eu fiquei sem saber como me colocar dentro dessa situação. Sou parte dos profissionais de saúde, mas como palhaço tenho um papel bastante particular de estar junto do sujeito, independente se este é ou não paciente, de identificar suas demandas e construir com ele, e assim sendo tem horas que vai ser de um jeito e horas que vai ser de outro.
Acho que a brincadeira acaba por vezes ofuscando muita coisa, como a moça que ao chegarmos desata de rir, que nos conta que perdeu o filho no dia anterior, e que era seu aniversário, que tinha passado o tempo todo antes chorosa e agora pendia pro outro extremo como ocorre por vezes. Rir é uma coisa fundamental pra saúde, conseguir fazer piada, tirar de letra, mas se a gente cair muito nisso acaba se perdendo e não se ganhando vida e saúde. Acho que em primeira instância há de vir o reconhecimento do sofrimento, de alguma forma, sempre. Não dá pra desconsiderar ele no nosso trabalho, deixar ele de lado, em suspenso. Pelo menos eu não consigo. Me parece que temos um papel muito importante de promotores de saúde e educadores de saúde exatamente porque temos condição de entrando ali nos colocar com relação ao doído e sofrido, e tentar puxar o que o sujeito tem de recursos para lidar com isso, que estão adormecidos ou anestesiados ou esquecidos. Se existe algo que poderia ser entendido como uma atuação melhor, seria uma que permite isso com mais intensidade, essa mudança, uma que puxa consigo uma resposta mobilizada de um sujeito agora mais disposto e motivado a lutar por sua saúde e pela daqueles que estão próximos. Não é só 'vai-ficar-bom', é o que tem agora que a gente pode fazer que é bom, que não vai curar a doença, ou trazer de volta o filho, ou ainda sanar as deficiências estruturais do hospital, mas que vai dentro de uma perspectiva de cuidado dar suporte ao humano que tem ali e que está por vezes tão sufocado por todos os lados por máquinas e protocolos e medicamentos e rotina e olhares neutros. E quem sabe nesses poucos e fugídios momentos de encontro que podem parecer tão passageiros dentro do contínuo infinito que é o viver de cada um, a gente não consiga fazer algo que por vezes o SUS não é capaz com suas equipes multiprofissionais, que os hospitais particulares não alcançam com seus quartos particulares impecáveis e suas máquinas de alta tecnologia: o suficiente.
sexta-feira, 2 de junho de 2017
Consternações
Eu ando me resolvendo bem tranquilo com as coisas religiosas. Falo isso porque antes não era assim, e não me refiro especificamente ao meu tempo de palhaço, mas a meu tempo de distanciamento da religião, que foi quase que absoluto por alguns anos. Enfim, como venho de um outro lugar nesse espectro, a maior parte de minha vida não tive que conversar muito com as pessoas de outras tradições religiosas sobre suas matrizes e crenças, ouvir delas o que sentem e acreditam. No hospital não tem muito como fugir da presença divína, e no caso de nossa realidade, essa matriz é católica ou evangélica. Fico me questionando se meu palhaço devia também ser judeu, se isso importa tanto pra mim que precisa aparecer também nesse trabalho. Me pergunto isso porque sou isso, e sei que se eu não reafirmar isso continuamente a identidade se perde. Existe dentro do judaísmo uma tradição muito forte de guardar, de manter, mas também uma de se perguntar e se questionar e se ver nisso. É ser judeu em todo o momento, com tudo aquilo que vem carregado nesse conceito e tudo aquilo que a gente quer ou gostaria que pudesse existir. Acho que poucas matrizes religiosas possibilitaram tanta diversidade para uma mesma identidade compartilhada, ainda que exista um establishment absolutamente averso ao que aconteceu de renovação nos últimos duzentos anos, de reconhecer que existe uma comunidade imaginária que cresce em cima da ideia de judaísmo, que é riquíssima e super diversa. Mas enfim, não faz muito sentido essa discussão tomar deste espaço. O que eu queria dizer só YO é que faz algum tempo, uns poucos anos, que eu decidi que iria vestir meu judaísmo, mostrar isso na forma, nas palavras e nos símbolos que uso dia-a-dia, mas daí vem esse outro ato de vestir e por ele não passa o meu ser judeu, e eu fico encucado sem saber o que eu sou, se eu sou mais palhaço ou mais judeu, se é harmoniosa essa dissociação ou se sofro com ela de alguma forma que acabo não cuidando de perceber.
Outra coisa que fica sempre lá marcada é a questão da sexualidade. Sou homem, verdade. Estou atuando com uma mulher. Verdade. Mas precisa mesmo sempre ser isso que é visto? Existem, claro, pessoas que vão estar mais ligadas e mobilizadas para falar dessas questões e outras que não vão tocar no assunto, mas eu queria muito sair de uma atuação sentindo que isso não foi sequer aludido em algum momento por alguém. Tenho que confessar que muitas vezes é dificil para mim me sentir motivado a brincar em cima dessas questões a não ser que seja brincando de fugir delas. Daí que a única conclusão que eu achei para um cara que começou com uma história gigantesca da cobra que o homem tem que vai atrás da fruta da mulher foi dizer que eu ia cortar a minha cobra fora, porque eu não queria envenenar ninguém. Literalmente me senti obrigado a recorrer à castração. Castração! Sem pesar o lado psicanalítico disso mas já pesando, puta que pariu, sabe? Queria que fosse mais tranquilo essas coisas pra mim. Ainda não tá sendo. Acho que preciso ter uma experiência mais extensa com alguém que se resolva melhor nisso, ou que se resolva no outro extremo com essas referências e alusões e conotações, para ver se consigo encontrar um meio termo.
Para além dessas questões, que vieram todas muito forte especialmente em um quarto e de uma mesma pessoa, queria deixar registrado que essa pessoa começa falando de ser crente, de pregar, do trabalho disso e de como o trabalho da gente também é bonito e que agora ela ia parar de falar para ver a gente, como se fossemos ali apresentar um ato, uma gag bem ensaiadinha, e simplesmente seguimos atuando. E ela trouxe que queria ver a gente, que a gente ainda não tinha atuado mais umas três vezes durante o tempo que passamos alí, e a gente continuou fazendo o que a gente faz, e concluímos sem gag e nada e cadê da pessoa lembrar quando estavamos indo embora que tinha faltado a apresentação dos palhacinhos? Mais do que isso, tinha pedido pra gente que fizesse algo, e foi uma das pessoas que mais se mostraram precisadas de falar até hoje. Acho muito doido como rola de mesmo nas horas que mexem pesado com o que a gente tem lá dentro da gente que a gente consiga ser uma outra coisa ali, mas não acho que a gente deva se sentir obrigado a isso. É só uma coisa que na maioria das vezes acaba acontecendo. A gente acaba conseguindo dissociar, entender que é da pessoa e não da gente. Mas claro que tem limite. E que tem que saber que tem limite. Penso no caso com a menina na pediatria, do dedo do meio.
A pergunta que me aparece agora é se eu de fato me senti ofendido por aquilo ou se fui mobilizado porque sei que socialmente isso não é reconhecido, que uma criança não tem o direito de fazer isso para outra pessoa na frente de adultos, ao passo que todo mundo pode falar o que quiser do sexo e do desejo que tem - desde que seja normativo - e do sexo e do desejo que o outro deve ter e eu não acho que posso reclamar disso na maior parte do tempo. É diferente de que forma, e por que responder á primeira situação faz sentido e responder à segunda não faz?
domingo, 28 de maio de 2017
Do pouco
Segundo dia de pediatria neste quase ano de projeto, e mais
uma vez a experiência será meio expressa, sem muito tempo para ficar voando
muito. Ir direto ao pote, com cuidado e sempre atento, mas otimizar o tempo que
temos. Esse é o foco. A pediatria parecia meio esvaziada, muitos quartos
fechados ou vazios, e muitos pacientes recém-nascidos, de modo que parecia que estávamos
eu e Safifi em um bis da atuação da semana passada. A coisa do desrespeito e do
abraço vieram hoje de novo na atuação. Uma menina me deu um dedo do meio e eu
fiquei emburrado, disse que saia se ela não me pedisse desculpas. Preferia que
a mãe não tivesse sido tão insistente, mas a menina se desculpou e a gente
conseguiu que o resto da atuação com ela – ainda que tenha sido curtinho nosso tempo
depois dessa situação - fosse boa. Fiquei super receoso, mas quando ia saindo pedi
a ela o abraço. Ela gostou de eu ter pedido. Isso me deixou muuuito feliz. Estou
super carregado de um monte de preocupações do resto da vida, e a cabeça não
está dando chão pra muito pensar. Teve uma médica que estava super cheia de
jogo e graça, e eu e Safifi jogamos ela bem pro alto. Ela foi a melhor palhaça
da vida naqueles minutinhos de corredor antes da despedida. Acho que tem alguma
coisa ai a ser levada em consideração sobre esta experiência em particular, mas
que agora me foge. Fica marcado que teve, e quem sabe depois eu não revisite
este momento e texto e consiga achar o que faltava ser elaborado?
Sensível
Nesta empreitada de atuar sempre com mais pessoas tive enfim
a oportunidade de estar com um outro de meus namoricos de PERTO, que ensaiava já
desde a oficina. Ia ser com Rai junto, mas quis o destino que fossemos só nós
dois, euzinho e Beatã. Conversamos um bocadinho antes, mais conversa do que até
então tínhamos efetivamente trocado um com o outro. Subimos a energia e eu pude
vê-la e estar junto dela quando eclodia em sua plenitude, se mexendo, agitada,
e eu me pegando cada vez mais comovido com essas coisas. Acho que tudo que
acontece nessa experiência de ser palhaço vira um agente sensibilizador se a
gente permitir, e vamos nos carregando neste sentido afetivo e conectado, eternos
admiradores e fomentadores de humanidade. Achei o setor como um todo muito
disponível nesse dia. Eram raros os quartos e os encontros de corredor que não
eram temperados por sorrisos e olhares acolhedores. Me senti muito respeitado,
e fico pensando que por vezes não sinto isso. Sinto que me desrespeitam, mas
até certo ponto eu acho importante que isso seja permitido, porque a gente meio
que serve de representação pra umas coisas difíceis mesmo por vezes. Mas enfim,
me senti muito respeitado nessa atuação, confortável comigo. Tô querendo ver se
consigo falar mais da minha barba de um lugar de orgulho, de valorizar. Tenho
que trabalhar um pouco isso. É engraçado
que sempre perguntam qual a relação nas duplas, se é namoro, marido e mulher ou
se são irmão e irmã. Fico sem saber muito como reagir nessas horas, o que é
bobo de minha parte, mas vem de um lugar de pensar se tem um jeito mais
acertado de responder, sabe Yo? Sempre quero dizer que é família ou que é
amigo, fujo dessa coisa do relacionamento amoroso porque tenho meus atrapalhos
com esse lugar da representação para a sociedade do que e de como uma relação é,
essa necessidade de legitimar e afirmar publicamente algo. Acho que se fala
muito de afetos e amores, mas também acho que eu falo pouco, que eu compro
muito pouco o papel de ser um homem frente a uma mulher e deixar que se
construam todas as conotações que se achar necessário, por que no fim das
contas não é o que eu sou, mas o que se vê. O atrapalho na minha cabeça é
chegar sempre tentando ver mais dos outros e nos outros e ser recebido com a
mesma perspectiva limitadora. Mas a gente supera.
De mais, acho que preciso ser mais no toque, saber pedir
isso, porque sei que me falta. Atuação que vem eu vou pedir pelo menos um
abraço. Está resolvido. Ainda que seja no término para Safifi, mas a ideia é me
colocar a ter abraços no setor. Pode cobrar, Yo. Pode puxar a orelha.
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Crescer como um bebê
Segunda atuação neste semestre no alojamento conjunto, com
as mães, pais e os seus bebês, mas dessa vez com Safifi. Estava ainda tossindo
um pouco, e fiquei com medo de tocar nos bebês e nas mães. Safifi estava
encantada com aquele lugar, aquelas criaturinhas, e eu me encantava ainda mais
com a forma dela de ver aquilo tudo, o que me ajudou a não sentir que estava
distante, ainda que me impusesse um monte de barreiras de contato. Jogar com os
bebês é uma experiência bastante particular. Eles reagem às coisas com tanta
intensidade que dá pra cansar só de acompanhar um movimento de espreguiçamento,
se formos tentar chegar no mesmo nível que eles, ou um ensaio de choro, um
suspiro de conforto, um bocejo. Eles são com o corpo todo, sentem com o corpo
todo, expressam com todos os milímetros de sua existência aquilo que está se passando,
e acho que isso é uma coisa que encanta muito mesmo. Sinto que preciso aprender a crescer como um bebê. Não de crescer e deixar de ser bebê para ser criança e depois adolescente e depois adulto. Crescer a relação com o existir como eles conseguem, ou como acontece com eles porque eles não estão tentando ser qualquer coisa, simplesmente existem daquele jeito. São senhores de uma expressividade absoluta, que tem tanto de transparente quanto de cênico e teatral. Parece ser a encenação de uma sensação, e é muito doido pensar que aquela é talvez exatamente a forma mais natural e verdadeira de se agir. Porque é tão carregado que não tem como a gente acreditar que é tudo aquilo, mas a gente acredita. Depois a gente relativiza, fala de um ridículo do ser tão intenso, mas basta eles mecherem um dedinho e somos novamente completamente sujeitados à sua arte de se expressar.
No mais, peguei um bebê no
braço, ainda que estivesse com tantos receios quanto à tosse, porque fui
assegurado por diversas pessoas durante essa semana que não deveria ter
problema, porque o bebê em questão estava bem protegido, com roupinha e manta e
uma toalhinha ainda e que assim não toquei de fato nele e ele não tocou de fato
em mim. Fiquei com vontade na hora de pedir a foto que a mãe tirou, mas esqueci
completamente disso. Agora me pego de novo com vontade de ter visto como
estava. Não é uma vontade que me vem com frequência. Fico achando estranho até,
em muitos sentidos, estar sentindo falta de ter a imagem do ato. Mas sei que quero,
não vou negar isso, e acho importante registrar, para que mais na frente se ela
voltar a aparecer eu não fuja de reconhecer ela, não a desconsidere como usualmente
acabo fazendo.
Bru e o belo
Namoro a ideia de atuar com Bru faz bastante tempo. Neste
semestre, com a contingência de estarmos todos de psicologia aglutinados no
terceiro setor do Niate para ter aulas, já que o CFCH se encontra interditado
para essas atividades, muitas figuras que não veria aparecem pelas minhas manhãs
na universidade com certa facilidade. Andei vendo muito Bru por aí, e num
desses dias, em que conversamos mais nos acordamos de fazer acontecer essa
atuação conjunta. A primeira vez não rolou, mas na semana seguinte estávamos nós
dois juntinhos embarcando nessa experiência. E foi massa. Estou amando isso de
atuar pela primeira vez com alguém do projeto, com mais pessoas. Especialmente
com quem sinto que me conecto de diversas formas mas que não dispus de muitos
momentos e tempos para desabrochar com mais intensidade e profundidade essa
conexão. O que levo pra mim de Bru nessa atuação é uma atenção ao outro, tanto
o colega palhaço quanto aos pacientes e acompanhantes. Bru atuava muito em cima
daquilo que eu jogava. E eu joguei um monte de coisa, em muitos momentos notadamente
com excesso. Falava e percebia só no meio que não estava sendo ouvido, que
estava falando baixo, que estava falando rápido, que estava falando de um jeito
que confundia e não comunicava. Muitas vezes senti que precisava me reorganizar
comigo mesmo para poder voltar a existir ali de fato. E eis que Bru, numa
jogada certeira e mágica, vira a uma senhora em um quarto e chama atenção à
beleza que tinha sua voz. Achei aquilo fantástico, me surpreendi com o
comentário, e fiquei pensando se em algum momento tinha me ligado em alguma
coisa assim nas minhas atuações passadas.
Eu tenho alguns problemas com o belo, e com certeza construí
um palhaço que deixa isso muito aparente. Acho tão difícil valorizar o belo que
existe no mundo e nas pessoas e em mim, fico sem jeito e desconcertado sempre,
porque de certa forma acho difícil saber distinguir com total clareza o que faz
certa coisa ter beleza e certa outra não ter. Ando lendo umas coisas sobre arte
para o trabalho no estágio que venho desenvolvendo esse semestre, e se fala de
estética dentro de certa perspectiva como aquilo que salta de diferente e que
impacta a gente. Como uma coisa no campo da experiência. Acho que eu tenho um
limiar de impactação ou muito baixo ou muito elevado, mas que ter isso faz
falta ao ser palhaço, e com certeza acaba faltando no meu cotidiano de diversas
formas. Fico um pouco desconfortável falando disso aqui dessa forma, porque
parece que precisa explicar um monte de coisa para que isso que eu estou
falando faça sentido. Acontece que na verdade não tenho pretensão de fazer
sentido nesse momento. Estou tentando através deste depoimento trabalhar comigo
uma coisa que sei que me falta. E acho que encontrei um jeito de lidar com isso
com o qual sou capaz de viver, de me sentir representado, de existir como quem
sou e não simplesmente achar que estou comprando discursos externos sobre
padrões e parâmetros para medir o que presta e o que é descartável. Vou procurar
trabalhar em minhas atuações de agora em diante a atenção ao estético, o
reconhecimento do impacto que senti por certos momentos e elementos e a
valorização destes. De certa forma sei que é isso que fazemos como palhaços,
mas quero correr atrás de verificar até que nível isso se dá mesmo, quão ligado
eu estou para esse valorizar e como eu posso melhorar a minha expressão disso. Acho
que vai nesse sentido o que estou me propondo aqui.
Dos outros
O natal se aproxima, e com ele vem um certo clima distinto
ao espaço do hospital. O setor está decorado para a festividade, com guirlandas
e pequenas miniaturas de papais noel. Ao sairmos do quarto onde nos trocamos
vejo uma mesa em que estão sentadas algumas pessoas. Vou até lá, me sento
também e converso um tempo com elas. Percebo pela periferia da visão que mais
alguém tinha chegado lá no canto esquerdo da parede, e quando viro o rosto para
o lado percebo que mais seis pessoas tinham aparecido, mas que nenhuma delas tinha
pulseira de paciente, ou adesivo de acompanhante, e que eram todas tão
jovens... Uma moça se senta e começa a falar com o grupo do horário e de coisas
assim e entendemos que se tratava de outro projeto de extensão. Saímos de lá
para ir ver os pacientes finalmente nos quartos do setor, mas acabamos de certa
forma sendo aglutinados ao outro projeto, acho que principalmente porque eram quase
vinte pessoas – pelo menos sentia que eram quase vinte pessoas. Possivelmente
mais gente que isso até. Iam promover um bingo, com diversos prêmios a serem
distribuídos aos pacientes e acompanhantes. Me senti desconfortável em diversos
momentos por conta disso. A atenção naquela atividade me distanciava de sentir
que podia interagir com profundidade com os pacientes de forma individual. O
setor estava muito mexido, tinha muita gente andando e falando e passando de um
lado pro outro. Em diversos momentos as pessoas do outro projeto jogavam para a
gente que tínhamos que dar uma animada e chamar os quartos que não queriam
participar do bingo. Não sei o que se deve fazer numa história dessas. Me senti
usado, animador de festa. Começaram a puxar músicas para alegrar, e em todas as
ocasiões olhavam para mim e para Aaaah, como se essa tarefa nos coubesse. Como
se dependesse da gente que o projeto deles tivesse um bom dia de ação, feliz e
pra cima e bonito e repleto de momentos ricos. Com isso acabamos ficando muito
tempo por lá. O dia foi escurecendo ao nosso redor, e não tínhamos conversado
com metade dos pacientes. Não porque não queríamos ou porque os pacientes não
estavam dispostos, mas porque o bingo não deu espaço. Sai muito sem saber se a
gente devia ter deixado de lado o outro projeto, se devíamos ter mesmo nos
ajuntado e daí completamente comprado a história do bingo. Não estava nem um
pouco pronto a ter que lidar com isso, e de fato não soube na hora resolver
aquilo de um jeito que me deixasse sentindo que tinha feito bem, que estava
tudo certo na forma como decidimos lidar com a situação. Fico achando que
misturar as coisas é muito difícil. Que fugira da gente o controle de dizer o
que somos e o que nos propomos a fazer. Eramos os palhaços deles, e eu acho que
essa sensação vai tardar um tanto a assentar dentro de mim e deixar de ferir.
memórias de um cárcere momentâneo
Com tanta gente falando que é difícil, fiquei receoso de
pegar na segunda semana de atuação a pediatria. A gente ia ter pouco tempo
porque ia rolar reciclagem naquela tarde ainda. Saí com o celular no bolso, me
sentindo meio mal com isso, mas não consegui me organizar de outro jeito para
ir para a reciclagem que não por carona, e tinha que sair do setor quando as
pessoas chamassem. A preocupação com o celular sumiu bem rápido, não lembro de
pensar nele um segundo sequer durante o tempo em que estive no setor... até que
recebo uma ligação. Mas isso está lá pra frente.
Saímos do quarto dos enfermeiros e logo nos chamou a atenção
a janela/vidro-de-aquário que dava vista às macas de um dos quartos. Eram duas
garotas um tanto crescidas. Do lado de fora estava um menino que não se dispôs muito
à gente naquela hora, e nos voltamos às meninas do quarto com maior atenção. Brincamos
um pouco pelo vidro e entramos. Estamos lá um tempo com elas, e o garoto do
corredor, mais novo que as meninas, entra lá e fica parado, olhando pra gente
intensamente, com a cara fechada. Anda até a poltrona e se senta. Volta e meia
tentamos jogar com ele, mas ele não dá muita bola. Deixamos que fique ali
acompanhando, como parece que quer fazer. E eis que do nada desbota a se rir sem
parar. Ri alto, largo, com o corpo inteiro. Compramos o riso dele, e o quarto
todo está de repente só rindo. De nada em específico. De tudo em particular.
Damos mais um tempo por ali e saímos, acompanhados do garoto que me pega na mão
e vai com a gente até seu quarto. O outro garoto que está lá se encontra no
chão, com um monte de brinquedos espalhados ao seu redor. O garoto que veio com
a gente do quarto vizinho se senta e nos chama a fazer o mesmo. Sento também e
na hora que sento me aperreio. Que diabos passou na minha cabeça de sentar?
Olho em volta, estou cercado de bonecos e pecinhas e carrinhos. Os objetos ao
meu redor tomam um semblante de obstáculos, crescem, crescem e me sinto
oprimido pela prevalência destes sobre minha liberdade de ir e vir. O garoto
que acabei de conhecer diretamente à minha esquerda quer me apresentar a todos
os bonecos com quem está brincando, me inteirar da história que estava
acontecendo ali. E eu só consigo pensar em que forma eu vou conseguir inventar
pra sair dali. Me senti absolutamente preso ao chão, como se estivesse colado
nele. Como se fosse ficar lá para sempre, com tanta coisa em volta de mim. E
então o celular toca, e era a carona. Digo que é o papai noel ligando – estamos
longe do natal, mas ele já está organizando tudo, claro – e que ele precisava
da nossa ajuda. Saímos, eu mais corrido que Aaaah, porque tinha a reciclagem.
Saio pensando que não fosse a ligação eu estaria até agora no chão ainda com as
crianças, que preciso me resolver mais, de estar junto mas saber também
desligar, seguir, avançar. Estar disponível ao que ainda está por vir.
sexta-feira, 28 de abril de 2017
Retorno
Está formalizado que continuo este semestre com Safifi
apenas. Passei o dia inteiro pensando em como se pensa o sujeito da
palhaçoterapia, tanto o sujeito humano quanto o sujeito palhaço e em como esse
sujeito dialoga com os sujeitos da Gestalt, do Psicodrama, da psicanálise, da
ACP... Tem muita coisa que pode ser dita a respeito desta questão, mas este não
me parece o lugar mais apropriado para tanto. Novamente tivemos um tempo estendido
de conversa antes do começo da atuação, e cada vez mais esse período me parece
parte integral da nossa atividade palhaçoterapêutica. É também uma forma de
aquecer, de se aquiescer à atuação, para que esta saia consentida e
compartilhada.
Foi a primeira vez que atuei em um lugar já antes conhecido.
Não só isso, atuamos, nós dois, pela segunda vez neste período juntos no mesmo
setor, e foi impressionante ao mesmo tempo que absolutamente óbvio que as duas
atuações tenham sido completamente distintas. Poucos elementos foram carregados
da vez passada para esta, e na maioria das vezes eles apareciam apenas de forma
complementar, como a referência ao nome de alguém de que lembramos. Em geral,
pareciam sempre aparecer estes elementos anteriores como marcadores de um
cuidado, um estar atento que não cessa com o fim do “expediente” no setor, e
eram todos estes elementos trazidos por Safifi. Ainda me sinto em conflito quando
me deparo em situações que contrapõem aos meus olhos uma valorização do agora com
um reconhecimento do que existiu no antes. Acho que doso estas duas coisas mal
muitas vezes, que a balança pesa horas para um e horas para o outro, mas que a
relação não é em mim harmoniosa, e senti Safifi extremamente segura neste balé
temporal. Senti Safifi muito presente nesta atuação. Atuamos por bastante
tempo, bem mais do que antecipávamos.
No mais, queria deixar atestado aqui uma coisa que me lembro
de ter sentido de forma muito igual a Safifi ainda na oficina. Existe nesse
existir palhaço, dramatúrgico, teatralizado, uma espécie de cansaço que é terapêutico.
Esta semana passei cansado de muita coisa, mas um cansado que se carrega nas
costas, que pesa nos ombros e na cabeça, que deixa tonto e desgostoso. O
cansaço do atuar é completamente distinto. Esse cansaço a gente carrega na
bochecha, no nariz, no mascarar. Cansa o olho mas não cansa o olhar. Seguimos
vivos. Tenho receio de que me acostumarei a ter isso, medo de quando não tiver
mais, de um momento em que não tenha mais, que isso ocorra, e me ponho a pensar
estratégias e caminhos de vida que me permitam dispor deste cansaço nos anos
que se seguem.
De quem vê o humano
Depois de uma série de tentativas de comunicação frustradas,
me inteiro pouco antes do momento da atuação propriamente que nesta semana
estaria atuando apenas com Cacá. Nunca tinha atuado com ela, e nunca tinha
atuado no alojamento conjunto, com mães e bebês e familiares. Acho que o que
mais me chamou a atenção desta vez, e algo que carrego da experiência com Cacá
é a atenção para não dar por fechado os jogos que não precisam ser fechados. Só
por termos saído de algum quarto não quer dizer que o que estava acontecendo
ali dentro tenha findado. E ao passar novamente pelas portas, um olhar para
dentro bem colocado é o bastante para que se retome, ainda que de forma
passageira, o que antes tinha sido proposto em conjunto. Me parece que em nenhuma
atuação até esta estive tão ligado ou tenha sido chamado tanto a atentar para essa
parte do nosso trabalho.
Sinto que existem poucas formas de se estar tanto com alguém
quanto se está no momento em que se sobe e se desce a máscara de forma conjunta. Me passa no
corpo inteiro nessas horas a sensação de que existe ali na minha frente um
infinito ambulante, impossivelmente gigantesco e belo, que eu nunca vou poder
resumir de qualquer forma que seja e que assim mesmo saberei para sempre
reconhecer, admirar, respeitar, valorizar. Poder depositar tanta crença no
profundo que é o ser humano num momento tão pequeno em sua marca no tempo e
espaço parece perigoso, arriscado, fruto de uma expectativa esperançosa de
olhar no mundo que falha em resolver as adversidades em outros contextos. Mas é
revigorante. Faz valer muita dor. É como se ali fossemos apresentados a um
segredo dos mais misteriosos e fugidios de que se tem notícia: a capacidade
humana de ser sempre mais, a dimensão do vir-a-ser existencial. E assim simplesmente
ela nos aparece e somos daquele momento em diante incapacitados de dizer que
não sabemos, que nunca vimos, que não acreditamos, que não é possível. Recebemos o encargo de
guardar no nosso olhar um pouco desta sabedoria, e somos convidados a tentar
traduzir em vivência essa realização. O que faz uma pessoa que sabe da
potencialidade de todo sujeito, mulher e homem? Como escuta essa pessoa às
outras e aos outros? Como as enxerga? Como os trata? O que apresentará a estas outras
e outros coabitantes de seus contextos e espaços? Não acho que possa ser o
mesmo. Algo de fundamental muda. Algo de fundamental fica para sempre mudado.
Devir
Segundo dia de atuação. Melca disse que não iria desta vez,
e fico animado para ver como vai ser só com Safifi isso de atuar. É sempre uma
coisa particular estar com uma pessoa que você conhece de outros espaços atuando.
Vem um medo de que as coisas se confundam de certa forma, que a gente transfira
de uma realidade para outra e que isso atrapalhe a atuação, a espontaneidade. Mas
isso passa. Passa quase na mesma hora que aparece, esse aperreio. É só lembrar
que na hora a gente vai estar lá e não em outro lugar, e vai ser lá e não em
outro lugar e vai ser o que tiver que ser. Ficamos mais que uma hora
conversando antes de atuar, uma coisa de descarrego e de aproximação que nasceu
de uma falta e uma vontade conjunta. Jogo bastante com Safifi no setor, meio
que como se assim a gente fosse construindo uma forma de ser junto, de estar os
dois ligados um no outro.
De certa forma, começo a ficar receoso de que eu esteja
faltando com a função do palhaço por estar tão ligado em construir. Às vezes parece
que uma coisa deve se contrapor à outra. Ser palhaço é estar no agora, e
construir é pensar num futuro. Mas para construir é preciso estar atento ao que
se deve, se precisa, se pode agora. Caso contrário, a construção não se
materializa e o futuro deixa de ser possibilidade. Penso em como as coisas
aparecem descoordenadas muitas vezes na atuação, como certos elementos podem
ser unidos para criar-se algo maior, em que caibam todas as partes e mais do
que isso, um todo novo, carregado de mais sentidos e propósitos e valores, um
jogo partilhado. Penso que se todo o momento de atuação tem o potencial de
servir como base para construções conjuntas, há de se poder também pensar em construções
maiores, que se finquem em atuações diversas durante um período mais extenso.
Não acho, contudo, que esta construção possa ser planejada. Vem do que surge no
próprio espaço. Seria equivocado chegar antecipando certa produção ou forma de
construir, mas esperar sentir depois que o edifício está maior do que antes
daquele momento me parece quase imprescindível, tanto para nos fazer entender a
importância do que fazemos quanto para permitir que cresçamos atentos, presentes,
inteirados, e não é como se o edifício possa algum dia estar completo, mas
quanto maior, mais diverso, mais presente e aparente for esta construção, mais
verdade, força, atenção e calor existirá nessa nossa palhaçaria terapêutica.
sexta-feira, 24 de março de 2017
Do novo
Chega um novo ciclo, e eu chego pra ele com uma sensação meio complicada de página nova mas de muita carga. Chego me sentindo pesado, como que carregasse comigo o todo das coisas que estão ao meu redor. Me canso por mim mesmo, e fico com receio de me fechar muito dentro de mim durante a atuação por conta desta sensação. Saio de casa quase perdido pela manhã, me atrapalho com o simples, perco uma aula, quase quebro o celular. Na aula me sinto distante, almoço pouco por medo de que a comida pese ainda mais e a energia toda corra pra barriga, deixando o olho mais fraco. Decido esperar por minhas MCMs no DA de medicina. Guga tava por lá, e o olho ligado faz contato. Bebo uma água, respiro, escovo os dentes. Sento e deixo o corpo descansar um pouco. Chegam mais rostos conhecidos, da palhaço e do passado de ensino médio, surpresas que carregam consigo uma mensagem bem clara de possibilidade, oportunidade, caminho.
É só estar pra ter. Mas existir é mais do que só ser. É só estar disponível pra ter jeito. Mas é preciso que se reconheça o que aparece por nossos caminhos para que essa energia potencial se transforme em força motriz. E daí se ri, se fala, se abre coisas e cantos e vínculos. Existir é perceber e reagir e esperar. É ser para além do seu pequeno espaço, do corpo casmurro, da pele como carapaça. Acho que existe uma carga bonita de significado que eu estivesse até semana passada descascando por conta do que me queimei pelas praias do litoral pernambucano agora enquanto minha irmã esteve por aqui. Retirando de mim camadas que me distanciavam do que está para fora desse organismo, do que é físico daquilo que sou.
A atuação foi mais um ponto dentro de um universo cade vez maior e mais interconectado de experiências. Parece todo dia mais difícil pra mim dissociar as coisas umas das outras.
Vi muita coisa boa na atuação da gente, desse grupo novo recém encontrado. Vi muita coisa pra crescer e fortalecer, e muita coisa pra repensar e ressignificar. Chego pra esse novo querendo que ele seja em sua verdade. Não, mais do que isso. Que ele exista. Que esse contato exista, que esse grupo exista, que venha de vida e resulte em mais vida ainda. Quero porque em muitos sentidos acho que nesses tempos preciso disso. De ver o trio como o resultado natural de um processo nosso de expansão e transcendência.
Hoje, de certa forma, acho que existo pra isso. Não apenas isso, mas isso com muita força. Sou palhaço. Acabei não dizendo isso às minhas MCMs após a atuação, mas daqui pra frente serei palhaço lá. Para todo mundo. Serei palhaço e mais coisas, claro. Mas serei palhaço. Isso eu não quero mais negar.
É só estar pra ter. Mas existir é mais do que só ser. É só estar disponível pra ter jeito. Mas é preciso que se reconheça o que aparece por nossos caminhos para que essa energia potencial se transforme em força motriz. E daí se ri, se fala, se abre coisas e cantos e vínculos. Existir é perceber e reagir e esperar. É ser para além do seu pequeno espaço, do corpo casmurro, da pele como carapaça. Acho que existe uma carga bonita de significado que eu estivesse até semana passada descascando por conta do que me queimei pelas praias do litoral pernambucano agora enquanto minha irmã esteve por aqui. Retirando de mim camadas que me distanciavam do que está para fora desse organismo, do que é físico daquilo que sou.
A atuação foi mais um ponto dentro de um universo cade vez maior e mais interconectado de experiências. Parece todo dia mais difícil pra mim dissociar as coisas umas das outras.
Vi muita coisa boa na atuação da gente, desse grupo novo recém encontrado. Vi muita coisa pra crescer e fortalecer, e muita coisa pra repensar e ressignificar. Chego pra esse novo querendo que ele seja em sua verdade. Não, mais do que isso. Que ele exista. Que esse contato exista, que esse grupo exista, que venha de vida e resulte em mais vida ainda. Quero porque em muitos sentidos acho que nesses tempos preciso disso. De ver o trio como o resultado natural de um processo nosso de expansão e transcendência.
Hoje, de certa forma, acho que existo pra isso. Não apenas isso, mas isso com muita força. Sou palhaço. Acabei não dizendo isso às minhas MCMs após a atuação, mas daqui pra frente serei palhaço lá. Para todo mundo. Serei palhaço e mais coisas, claro. Mas serei palhaço. Isso eu não quero mais negar.
sábado, 5 de novembro de 2016
O primeiro de muitos!
Não sei direito por onde começa a história que cabe contar nesse DB, Yo... Todo o tempo que demorou para que eu chegasse a essa primeira atuação entra? Entra a história da maquiagem? O caminho pra federal no dia?
Eu estava super mobilizado naquela terça, porque a instabilidade da universidade e a cobrança nesse sentido por parte de minha mãe estavam pesando bastante... Daí ainda vem que eu acabei tendo uma conversa gigante com ela logo antes de ir pro HC... Chego lá com vontade de desistir, mas sabendo que não faz sentido nenhum adiar isso. Entro pela primeira vez na vida no HC e dou uma andada para tentar me familiarizar com aquele edifício. Aaaah me responde no whats e subo pra encontrá-la. Logo depois chega Vivi que ia substituir o substituto inicial da nossa lindovisora naquele dia. Vivi foi jóia. Combinamos de nos encontrar já na entrada do setor - enfermaria cirurgica sul do décimo andar - e logo Vivi foi dando as coordenadas. Usamos um dos quartinhos das enfermeiras para nos trocar e fazer a maquiagem. Senti que estavamos tomando muito tempo nesse processo todo, mas no fundo não tenho noção de quanto tempo levou até a gente sair de lá. Aaaah estava beeeeem mexida, nervosa... Eu estava querendo que acontecesse logo e se fosse pra ser ruim então que assim fosse, tinha álcool no fim do dia pra levar embora as mágoas. Acho que fiz as coisas meio corrido, sabe? Não sei se consegui aproveitar de verdade tudo desse processo inteiro. Também não sei o quão disponível eu estava naquele dia para o todo dessa coisa de ser palhaço. Tenho medo dessa história ainda, acho.
A atuação em sí rolou, com uns momentos de maior interação, uns momentos de significativo esfriamento. Empaquei algumas vezes. Fui muito tentando entender e acompanhar o sentimento das outras pessoas daquele universo, num esforço de buscar crescer alí o que tivesse que pudesse ser mobilizado. Um sentido meio catártico de intervenção, né? Daí que acho que a menor das coisas para mim era encontrar risos. Queria saber das pessoas, do que elas sentiam, queriam, precisavam. Em alguns momentos isso aconteceu de forma bem orgânica, natural mesmo, em outros foi um pouco forçado e talvez em uns poucos simplesmente não rolou. Falei no primeiro encontro da oficina que achava que ser palhaço era entrar em contato com uma linguagem, e depois de ter tido essa experiência eu acho que essa ideia tinha mais sentido até do que supus naquele momento. Acho que não tenho fluência ainda em ser palhaço. Entendo um tanto das regras, das dimensões - e limitações - desse léxico, mas a aplicação e o andamento ainda precisam de vivência para se solidificarem, me parece.
Alguns pontos que fico pensando depois desse dia:
- Saí do quarto pro corredor muito quente, e dei uma explodidinha logo no começo, levantando mais a voz e tal que acho que saiu meio pesado pro espaço, mas Aaaah me deu uma centrada e eu consegui controlar melhor a energia naquela hora.
- Um dos quartos estava tão disposto ao jogo que acho que me contagiei e acabei esquecendo ali de pensar no resto do setor. Fiquei em dúvida se ter passado tanto tempo com gente que estava tão receptiva e disposta foi ideal desde uma perspectiva de cuidador, de agente de cuidado naquele hospital. Para mim acho que foi ótimo, e para Aaaah também. Dá uma confiança a mais, uma energizada... Não sei se é bom ou ruim isso, fiquei encucado.
- Aprender a sair. Vivi chegou até a chamar atenção para isso antes, e conversando depois com Caio ficou ainda mais claro pra mim o quão complicado é saber a hora e especialmente o jeito ideal de sair de um espaço, de um grupo, de um encontro para buscar outro, ou mesmo para aquele que te chamou discretamente e que te mobiliza mais agora. Como sair sem transmitir descaso? Como sair sem que a energia caia antes? Acho que pra isso é só tempo e prática mesmo que dá jeito.
Acho que por enquanto vai ser isso aqui, Yo. Desculpa se acabo cometendo alguma omissão crassa desapercebida neste momento, mas palavras não bastam. Até a próxima
Eu estava super mobilizado naquela terça, porque a instabilidade da universidade e a cobrança nesse sentido por parte de minha mãe estavam pesando bastante... Daí ainda vem que eu acabei tendo uma conversa gigante com ela logo antes de ir pro HC... Chego lá com vontade de desistir, mas sabendo que não faz sentido nenhum adiar isso. Entro pela primeira vez na vida no HC e dou uma andada para tentar me familiarizar com aquele edifício. Aaaah me responde no whats e subo pra encontrá-la. Logo depois chega Vivi que ia substituir o substituto inicial da nossa lindovisora naquele dia. Vivi foi jóia. Combinamos de nos encontrar já na entrada do setor - enfermaria cirurgica sul do décimo andar - e logo Vivi foi dando as coordenadas. Usamos um dos quartinhos das enfermeiras para nos trocar e fazer a maquiagem. Senti que estavamos tomando muito tempo nesse processo todo, mas no fundo não tenho noção de quanto tempo levou até a gente sair de lá. Aaaah estava beeeeem mexida, nervosa... Eu estava querendo que acontecesse logo e se fosse pra ser ruim então que assim fosse, tinha álcool no fim do dia pra levar embora as mágoas. Acho que fiz as coisas meio corrido, sabe? Não sei se consegui aproveitar de verdade tudo desse processo inteiro. Também não sei o quão disponível eu estava naquele dia para o todo dessa coisa de ser palhaço. Tenho medo dessa história ainda, acho.
A atuação em sí rolou, com uns momentos de maior interação, uns momentos de significativo esfriamento. Empaquei algumas vezes. Fui muito tentando entender e acompanhar o sentimento das outras pessoas daquele universo, num esforço de buscar crescer alí o que tivesse que pudesse ser mobilizado. Um sentido meio catártico de intervenção, né? Daí que acho que a menor das coisas para mim era encontrar risos. Queria saber das pessoas, do que elas sentiam, queriam, precisavam. Em alguns momentos isso aconteceu de forma bem orgânica, natural mesmo, em outros foi um pouco forçado e talvez em uns poucos simplesmente não rolou. Falei no primeiro encontro da oficina que achava que ser palhaço era entrar em contato com uma linguagem, e depois de ter tido essa experiência eu acho que essa ideia tinha mais sentido até do que supus naquele momento. Acho que não tenho fluência ainda em ser palhaço. Entendo um tanto das regras, das dimensões - e limitações - desse léxico, mas a aplicação e o andamento ainda precisam de vivência para se solidificarem, me parece.
Alguns pontos que fico pensando depois desse dia:
- Saí do quarto pro corredor muito quente, e dei uma explodidinha logo no começo, levantando mais a voz e tal que acho que saiu meio pesado pro espaço, mas Aaaah me deu uma centrada e eu consegui controlar melhor a energia naquela hora.
- Um dos quartos estava tão disposto ao jogo que acho que me contagiei e acabei esquecendo ali de pensar no resto do setor. Fiquei em dúvida se ter passado tanto tempo com gente que estava tão receptiva e disposta foi ideal desde uma perspectiva de cuidador, de agente de cuidado naquele hospital. Para mim acho que foi ótimo, e para Aaaah também. Dá uma confiança a mais, uma energizada... Não sei se é bom ou ruim isso, fiquei encucado.
- Aprender a sair. Vivi chegou até a chamar atenção para isso antes, e conversando depois com Caio ficou ainda mais claro pra mim o quão complicado é saber a hora e especialmente o jeito ideal de sair de um espaço, de um grupo, de um encontro para buscar outro, ou mesmo para aquele que te chamou discretamente e que te mobiliza mais agora. Como sair sem transmitir descaso? Como sair sem que a energia caia antes? Acho que pra isso é só tempo e prática mesmo que dá jeito.
Acho que por enquanto vai ser isso aqui, Yo. Desculpa se acabo cometendo alguma omissão crassa desapercebida neste momento, mas palavras não bastam. Até a próxima
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